Porque ArkAngel é o pior episódio de Black Mirror

Um tema importante tratado da forma mais simples possível.

Luide
Luide
10 de Janeiro de 2018

É madrugada em algum momento de 2005 quando chego em casa da rua. Um pouco bêbado. Minha mãe ainda está acordada. Na época, com 19 anos, me sentia o maior adulto do mundo, responsável e dono de mim mesmo. Mas ainda assim minha mãe não conseguia ter uma boa noite de sono enquanto eu não chegasse em casa seguro. Esse dia não sai da minha cabeça por um motivo: na época tratei aquele excesso de proteção e preocupação com um certo deboche: “que exagero! eu só fui ali“. O Luide de 2005 viaja pelo tempo e chega até 2018, e agora pai, está no lugar de sua mãe. Será que um dia serei contestado pela minha filha da mesma forma que contestei minha mãe?

A resposta é a mais óbvia possível: sim.

Quando a Alice vai passear com a mãe na casa da vó, não consigo desgrudar meus olhos do aplicativo de carona. Se o carro por algum motivo para (farol etc) meu coração já acelera, pensando que algo aconteceu. Realmente é exagero, mas o que posso fazer? Se existe algo nesse mundo que transcende qualquer sentimento e lógica é o amor que tenho pela minha filha. O que eu sinto ou deixo de sentir é um problema meu, porém, quando esse sentimento sufoca se torna um problema também do sufocado.

Superproteção parental é um tema delicado e que ganha calorosas opiniões (principalmente por parte daqueles que NÃO tem filhos). Todo mundo adora apontar para a criação alheia, mostrar onde aquele pai ou mãe erram ao educar o filho. Se a criança da um choro em público, já se conclui que ela é mimada demais pelos pais, que não sabem dizer “não”. A missão de criar um ser humano que em breve estará inserido na sociedade se torna ainda mais difícil quando atos de carinho e cuidado são confundidos com um plano maquiavélico de tornar aquela criança um ser intocável. É difícil.

É aí que ArkAngel se mostra um episódio pobre. Tão pobre que é inacreditável que seja parte da série mais promissora da última década.

A história de uma mãe que após um evento traumático resolve monitorar a filha 24hrs por dia, cai na mesmice de sempre. A mãe “louca” e a filha adolescente que se envolve com uma “má companhia”. ArkAngel nos “apresenta” (esse conceito já foi usado tantas vezes na série e já encheu o saco) uma tecnologia que é o sonho de todo pai/mãe superprotetor: um implante que permite monitorar desde as vitaminas no corpo do seu filho, até o que ele vê. A grande vantagem é o poder de decidir o que a criança pode enxergar, inclusive bloqueando imagens fortes ou estressantes, colocando o implantado em uma espécie de bolha. Já viu aquela expressão de filhos criados como se fossem pintinhos embaixo das asas da galinha? É a versão moderna.

Mas ArkAngel erra em tudo. Nas motivações da mãe, na forma como trata a superproteção, mas principalmente no seu desfecho, que é cara dessa temporada de Black Mirror: tentativas consecutivas de criar um “choque final”.

Voltando a 2005. Minha mãe acordada, eu chegando de madrugada. Apesar de parecer que ela seria a primeira a colocar o implante de Black Mirror na minha cabeça, sempre tivemos uma relação saudável. Mas não é a regra. Existem milhares de casos onde o abuso psicológico cometidos por pais deixa severos danos nos filhos, só que falar disso ainda é um tabu, afinal, quando a proteção e cuidado passa a se tornar uma prisão? Crianças que tem a infância roubada, adolescentes que tem a privacidade invadida e adultos que não conseguem se livrar das inúmeras cobranças.

É justamente por não promover uma reflexão além dos “males da tecnologia” que ArkAngel se torna simplista demais. A trama gira em torno dos limites do uso do aparelho e suas consequências, assim, esquece de mostrar pequenas nuances no relacionamento entre mãe e filha (e também de trabalhar a ausência paterna na criação), tratando deles da maneira mais preguiçosa possível (como já dito, a mãe louca e a adolescente rebelde).

Um desperdício. Se você quer um retrato melhor desse tema, Big Little Lies se sai infinitamente melhor.

Enquanto isso, no canal…

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