Pecado é não assistir Silêncio

Novo longa metragem do diretor não é apenas uma obra prima, é uma declaração de fé ao cinema

Luide
Luide
19 de março de 2017

“A fé é a prova das coisas ainda não vistas”

Se Martin Scorsese é ou não um gênio do cinema é um assunto desnecessário, sua obra fala por si. Não se trata apenas de um diretor que demonstra um domínio incrível da arte, mas também do entretenimento pop. Filmes como Os Bons Companheiros e O Lobo de Wall Street são um exemplo do alinhamento perfeito entre qualidade e apelo popular. Conseguem atrair um público que raramente assiste outra coisa além de blocbkuster, ao mesmo tempo que tem um comprometimento com o que está sendo posto em tela.

Assim como Quentin Tarantino, Scorsese é um dos poucos diretores que ainda teimam em levar bons filmes para um público cada vez mais viciado e anestesiado. Não é por menos que seus últimos filmes foram fracassos de bilheteria, já que Os Oito Odiados Silêncio são declarações de amor ao ato de fazer cinema. No caso de Scorsese, trata-se ainda de uma oração silenciosa. Uma demonstração de fé.

E a tarefa não é fácil, já que Hollywood sempre deu ênfase aos “horrores da igreja católica”, e Silêncio retrata um período onde os cristãos católicos eram perseguidos, torturados e mortos no Japão. Ué, onde está a malvada Igreja? O resultado é um filme que está causando incômodo em quem esperava esse tipo de passagem. Aqui acompanhamos a jornada de dois padres jesuítas em terras hostis a sua fé. A crença em Jesus resulta em desgraçada.

Acontece que esse tipo de abordagem é a última coisa que o “fã” de Scorsese gostaria de ver vindo das mãos do diretor que até pouco tempo, fez Leonardo Di Caprio cheirar cocaína na bunda de uma prostituta. Onde está esse tipo de perversão e agressividade? A máfia? A confusão mental que Silêncio provoca no espectador que detesta ser desafiado e questionado, acabou jogando pra escanteio a obra da vida do diretor.

Silêncio total.

Estarei orando para você, meu filho” é o tipo de frase que ouço toda vez que falo com minha mãe. Quem poderá provar que aquilo que ela pede em silêncio não é ouvido? Se existe ou não um Criador, essas orações tem menos valor? Se tornam menos verdadeiras? É Deus quem permanece em silêncio ou somos nós que não ouvimos?

Silêncio não questiona Deus ou a igreja. Questiona o homem. Rodrigues (Andrew Garfield) é um personagem universal: até que ponto podemos ser testados? A fé no divino, e a fé naquilo que julgamos correto. A tentação do auto-questionamento sobre o verdadeiro significado de nossas ações é demoníaca. Quem é forte o suficiente para suportar ter tudo aquilo que tinha como justo e bom sendo destruído?

Rodrigues é só um homem. Um homem de fé, temente e obediente a Deus. Mas ainda assim um homem. Por isso Silêncio não deixa de ser um filme que precise de uma certa crença. Ao menos que você busque compreender as motivações dos personagens, fica impossível uma imersão completa. A complexidade das ações só podem ser lidas dada a disposição do espectador em entendê-las. Porque ele simplesmente não pode pisar na imagem de Cristo como pedem os inquisidores japoneses?

Com 2 horas e 40 minutos de projeção, Silêncio é um espetáculo cinematográfico cada vez mais raro e distante do público. Considerado “lento” (como se isso fosse demérito) ou com temas que, infelizmente, muitos consideram sinônimo de atraso (Deus, fé, a igreja), Silêncio é a prova do umbiguismo da cultura pop. Ou você joga dentro das regras do entretenimento, ou você é deixado de lado. Em silêncio.

Pecado é não assistir esse filme.

 

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