Quando algo incomoda em Better Call Saul…

Amarillo (S02E03) e Gloves Off (S02E04) são episódios legais, mas sei lá...

9 de março de 2016

Volta e meia, quando bate o desânimo e a vida deixa de ter sentido, escolho aleatoriamente um episódio de Breaking Bad e assisto. Fico ali matando a saudade e pensando em como eu não mudaria nada na série, como tudo é bem feito e conduzido. É um sentimento de paz saber que uma das minhas séries favoritas segue irretocável.

Já nessa segunda temporada de Better Call Saul começo a me perguntar se os rumos que o roteiro está tomando são os melhores. Não entenda mal, eu gosto da série, mas em alguns momentos ela parece entrar em um círculo vicioso, com as mesmas coisas se repetindo.

Amarillo (S02E03) e Gloves Off (S02E04) foram dois bons episódios, que divertem, brincam com nossa nostalgia, mas arrasta ainda mais essa segunda temporada. É bom deixar claro que série lenta e série arrastada são coisas totalmente diferentes, e Better Call Saul infelizmente se arrasta vez ou outra.

Já está claro que estão usando o método Walter White de desenvolvimento de personagem para Jimmy. Suas constantes decisões baseadas no ego, dúvidas morais sobre o certo ou errado e até onde ele está disposto a ir para conseguir seus objetivos, são alguns pontos importantes nessa caminhada. E como nós sabemos onde tudo isso leva, cria-se uma sensação de incômodo.

Já está absurdamente claro que Jimmy não se encaixa nessa vida de advogado de grandes casos, dividindo tarefas com colegas de trabalho e recebendo ordens. Desde o primeiro episódio, da primeira temporada, o roteiro martela isso. O interessante nessa jornada é tentar ler as ações e descobrir quando esse momento de ruptura irá acontecer, e Jimmy dará lugar a Saul.

Tudo indicava que a revelação de Chuck ser o “vilão” em Pimento seria o principal condutor dessa virada de chave em Better Call Saul. Não foi. Em Amarillo Jimmy confronta o irmão durante uma reunião, algo que nunca havia acontecido, mas ao perceber a reprovação de Kim ele volta atrás. Ou seja, essa “quebra” que irá acontecer será lenta e gradual e mostrada em várias e várias vezes durante a série…

Ai entra a pergunta: quantas temporadas cabem em Better Call Saul? Quantos episódios um prequel precisa? É complicado fazer essa pergunta justamente quando Saul Goodman é um dos meus personagens em séries favoritos. “Poxa Luide, como assim você não quer?“, bom, já dizia a bíblia “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém“. Prefiro que o legado de Breaking Bad seja mantido do que minha satisfação pessoal aconteça.

Enquanto Jimmy luta contra seus demônios, Mike segue ganhando destaque nessa temporada. Porém não sei até que ponto achei necessário esse lance envolvendo o Tuco em Gloves Off. Na real, vibrei mais com a mini participação do Krazy-8 do que qualquer outra coisa. E é engraçado que tanto Mike, TucoKrazy-8 vão um dia encontrar um certo professor de química e bom, nós sabemos o que o futuro lhes reserva.

E é justamente por saber o futuro que esse sentimento de incômodo volta e meia aparece. Better Call Saul segue como uma série boa, com momentos divertidíssimos, principalmente quando Bob Odenkirk é mais Saul do que Jimmy em sua atuação.

Segue o jogo.

Há ANOS House Of Cards não entregava uma sequência tão espetacular de episódios

Desde o primeiro ano, House Of Cards não engata 4 espetaculares episódios seguidos

8 de março de 2016

Senhoras e senhores, House Of Cards voltou. E quando digo isso, não me refiro ao seu retorno de quarta temporada, mas sim em como a série se reencontrou, voltou a ser dinâmica, direta e clara em suas intenções. Parou de tentar ser uma paródia política pra agradar a moçada que ainda não percebeu que, assim como qualquer outra instituição, ela é recheada de podridão.

Frank Underwood agora tem uma ameaça séria, mas ao mesmo tempo caseira (nada bilionários, China ou Rússia): precisa se provar como candidato, e conseguir o apoio dos americanos para um cargo em que ele não o fez por merecer. É isso, a quarta temporada se resume a esse embate, mas assim como feito em 2013 em seu primeiro ano, esse caminho de Frank Underwood não é uma bela rodovia vazia, mas uma estrada esburacada cheia de obstáculos.

E pra dificultar de verdade a vida do presidente, House Of Cards finalmente deu a Frank um oponente a sua altura. Não um político bocó que ele enrola com duas ou três promessas, mas alguém tão diabólico quanto ele, disposto a destruir e arriscar qualquer coisa. Esse alguém responde pelo nome de Claire Underwood.

Junto com os dois anteriores, Chapter 42 e Chapter 43 formam a melhor sequência de episódios de House Of Cards há anos. Ambos os dois com direção da própria Robin Wright, tivemos Frank e Claire em suas melhores formas, em uma direção perfeita de Wright, que parece conhecer o casal como mais ninguém na série.

Chapter 42 não só é o melhor episódio da quarta temporada até aqui, como um dos melhores em toda série. Contido e bem resolvido, ele fornece uma breve ascensão a queda de Frank ao perder para Dunbar em seu estado natal. É um golpe terrível para um candidato, oras, se ele não pode vencer em sua casa, onde mais venceria? Uma jogada monstruosa de Claire, que após dar a facada e ver Frank sangrar, se oferece para conter o ferimento.

É Claire Underwood despontando de vez como uma das grandes vilãs da história da tv. Uma frieza que envolve desde suas roupas, a microexpressões. É pra causar calafrios quando ela fala, gesticula, toda reclusa de sentimentos, mas nós sabemos que ali dorme um demônio. Seu golpe é tão poderoso que vemos Frank pela primeira vez despido de sua versão cínica de político. Ao falar do pai, temos ali o homem sem a coroa presidencial, humano, colocando pra fora tudo o que está sentindo.

Foi a única vez que me orgulhei de meu pai

Terminei esse episódio suando.

Chapter 43 volta a apertar o cerco para Frank. A crise de combustíveis da Rússia gera uma situação desfavorável a sua campanha, e justamente em um momento onde ele mais precisa estar forte em suas decisões, acontece uma tragédia. Confesso que o roteiro me pegou de surpresa pela sua coragem e creio que os desdobramentos desses disparos vão respingar pela campanha.

Aguardemos. Também foi triste dar adeus a um personagem tão querido… mas jogo que segue. Com Claire cada vez mais se posicionando e se tornando uma ameaça a Frank, House Of Cards caminha para cravar uma temporada histórica.

PQP! Toma aqui o primeiro trailer da SEXTA temporada de Game Of Thrones

"Eu escolho a violência" - AAHHHH meu amigo do céu...

8 de março de 2016

Segura:

Rapaz do céu… tudo isso aí em apenas 10 episódios? Pois é, poucas séries conseguem contar tantas histórias assim sem perder o ritmo e audiência. É um verdadeiro JOGO dos Tronos, não é pra principiantes mesmo. Começo a ficar com pena de quem ficou de birra e disse ter desistido da série ano passado. Bem feito, olha o que vocês vão perder… A HBO nunca brincou em serviço e esse ano a “série-evento” chamada Game Of Thrones promete destruir a internet.

Depois dos acontecimentos finais da quinta temporada, que pois fim a várias jornadas e recomeçou outras, as peças do tabuleiro foram reposicionadas. Cersei escolheu a violência, Daenerys agora caminha pela terra sem seu poder de Khaleesi e Jon Snow está próximo da Missa de Sétimo Dia.

Pra fechar esse trailer magnífico, Bran Stark retorna e PQP! Já de cara trombando um White Walker. Meu amigo, essa temporada promete.

Em episódio violento, The Walking Dead está próximo de ensinar uma terrível lição

Atacar o inimigo sem conhece-lo foi um erro TERRÍVEL cometido por Rick

7 de março de 2016

Não se ganha uma guerra sem conhecer o inimigo. Saber quando e onde atacar é vital para destruir qualquer probabilidade de revide. No mundo de The Walking Dead isso se torna ainda mais necessário, afinal, não é difícil encontrar o ponto fraco do grupo de Rick. Ao longo de anos lutando para sobreviverem juntos, todos ali criaram uma ligação maior que simplesmente “trabalho de equipe“.

E esse afeto que eles acabaram desenvolvendo um pelo outro é mostrado em vários momentos ao longo de Not Tomorrow Yet (S06E12). Desde Carol que se porta como uma verdadeira mãe na comunidade (ou sua reação desesperada ao descobrir que Rick aceitou que Maggie fosse executar o plano), a Tara e seu relacionamento que comece a nascer. É o roteiro de expondo a poderosa união desse grupo.

Eu queria saber qual deles é Negan…

Essa união é necessária para vencer, sim, mas a arrogância tomou conta de Rick no último episódio. Ao ver uma comunidade frágil como Hilltop e lembrar de tudo que já viveram, Rick achou correto atacar os Salvadores antes mesmo deles saberem da existência de Alexandria e de seu grupo. É um plano arriscado que pode causar muitos danos? Sim, mas depois do Governador, Terminus e Wolfs, existe alguém capaz de parar Rick e seu grupo?

Alguém tão preparado assim pode ser difícil de encontrar, mas está claro que Os Salvadores estão dispostos a perder qualquer coisa pra vencer, inclusive seus membros. O mesmo não se pode dizer do lado de Alexandria, a única coisa capaz de fazê-los baixar suas armas é a ameaça de um dos seus. A vida de um amigo é mais importante que a guerra?

Pois é, atingiram o calcanhar de Aquiles. Em um episódio violento, The Walking Dead segue em um bom ritmo, mantendo o nível dos episódios como há tempos não faz. Tirando alguns episódios (principalmente aquele focado no Morgan) da primeira parte, essa sexta temporada já se projeta como a melhor feita até aqui.

Porém já se encaminha para ser a mais traumática no mínimo. A cada minuto que o tempo avança, a cada respirar, é possível ouvir, mesmo que ainda baixo, o som de Lucille chegando… E ela vai chegar, e será nesse momento que Rick irá perceber que tomou a pior decisão de sua vida.

Senhoras e senhores, House Of Cards está de volta!

Depois de duas temporadas difíceis, House Of Cards retorna dinâmico e focado como foi em seu primeiro ano

7 de março de 2016

O Netflix ainda era “apenas” um serviço de streaming espalhando conteúdo de terceiros, até que um dia, um sr. chamado David Fincher bateu na porta da empresa com um projetinho chamado House Of Cards. Foi então que Ted Sarandos, criador do Netflix, teve a realização e percebeu que eles tinham audiência qualificada pra suportar um drama político, envolvendo um congressista criado dentro das regras do anti-herói estabelecido pela HBO em Sopranos.

Não da pra medir a importância de House Of Cards pro Netflix. Se hoje o serviço promete uma nova série/documentário/filme a cada 15 dias, foi porque em 2013 Frank Underwood quebrou a quarta parede, olhou nos seus olhos e falou sobre os dois tipos de dor que existem.

A primeira temporada de House Of Cards é uma das obras primas da tv moderna. Além de produtor excecutivo, David Fincher também foi o diretor dos dois primeiros episódios, o que deu pra House Of Cards uma estética própria, que até hoje segue belíssima, com seus planos abertos, câmera parada e uma paleta de cores tão sombria quanto a mente de Frank.

Acontece que House Of Cards não conseguiu se superar. Apesar de boas, a segunda e a terceira temporada não seguraram o carro desgovernado que foram os 13 primeiros episódios. Muitas tramas paralelas começaram a acontecer e Frank Underwood deixou de ser aquele congressista articulado que estava um passo a frente de todo mundo. Mas ao subir de cargo, o peso da profissão veio a tona, então o lobo em busca de carne fresca, finalmente teve seu banquete. E ficou gordo e lento.

Não teve pra chinês ou presidente russo, quem realmente colocou Frank Underwood em perigo (e tirou das férias) foi aquela que o observou jogando ao longo de décadas. Claire Underwood foi o grande destaque do terceiro ano, e ver que a série não voltou atrás em seu rompimento com Frank foi compensador. Agora o perigo não são os outros, mas os nossos.

Esse quarto ano ou enterrava a série e a transformava em uma paródia pra moçada que curte esse lance de política suja, ou voltava a ser boa. Pelo visto voltou a ser boa se levarmos em consideração os dois primeiros episódios.

Chapter 40 e Chapter 41 chegaram com fôlego. Frank Underwood agora em meio a uma difícil campanha de reeleição, precisa lidar com N fatores, amarrar várias pontas soltas, pra finalmente voltar respirar aliviado na cadeira de presidente. Na frente desse trem de problemas está Claire, tão fria que chega a assustar. É até triste saber que o Emmy ainda não premiou Robin Wright.

Esse duelo promete ser o centro desse quarto ano que começou ótimo e lembrando em muito a primeira temporada.  No único momento em que Frank quebra a quarta parede, não é pra nos contar algo óbvio, mas sim para dar um show ao traçar um paralelo entre suas experiências passadas e o que está enfrentando agora. Esse recurso deve ser usado com inteligência, se ficar martelando torna-se algo bobo.

Abram caminho para House Of Cards, Frank Underwood está de volta ao jogo e com o machado em mãos. Você irá querer ficar em cima da árvore, né?

How I Met Your Mother é a série perfeita para quem está próximo dos 30

Pois é, estamos chegando aos 30. E agora?

6 de março de 2016

As transições de fase da vida são momentos confusos e cheio de dúvidas. Existe uma importância social e simbólica quando você entra na puberdade e se torna adolescente. Ainda há um apego as coisas da infância, mas agora você precisa se adaptar a novas normas que a juventude cobra. Essa parte da vida é curta, mas intensa, então quando menos se espera BOOM! Somos adultos.

Mas quando começamos a perceber que a vida não é só balada no fim de semana e sexo sem compromisso? Em que momento existe uma virada de chave e as coisas que você adorava fazer agora não são mais tão legais assim? É a fase que de fato transporta o adolescente pra vida adulta, que pra mim acontece entre os 25 e 30 anos. Sabe quando você começa a perceber que ficar em casa sábado a noite não é tão ruim? Que um papo no bar é mais divertido que uma mega balada? Pois é.

How I Met Your Mother é uma série que fala muito sobre essa transição, ou melhor, essa aceitação pessoal de que não somos mais adolescentes. Ted, Lily e Marshall são três personagens que ilustram bem essa fase, cada um com seus dilemas e desapegos. Como já falei aqui, a primeira temporada mostra um Ted completamente mimado e egoísta, colocando seus problemas românticos acima de qualquer outra coisa.

É comum, quando adolescente, nos sentirmos o centro das coisas ou que o mundo gira em torno de relacionamentos. Ted passa por momentos assim durante as duas primeiras temporadas, e aos poucos, começa a perceber que antes de ser aceito por alguém, ele precisa crescer e aceitar que certas coisas não se moldam por você. É interessante ver sua jornada de amadurecimento, como queda após queda, seu caráter vai se tornando cada vez mais adulto.

Um bom exemplo é quando ele e Robin decidem morar juntos, um passo importantíssimo na vida de um casal, mas que só pode acontecer quando estamos preparados mentalmente para aceitarmos outras formas de pensar dentro de nossa casa. É preciso lembrar que a última vez que tivemos esses impasses foi com nossa mãe na adolescência. Por isso morar junto não é um programa de fim de semana, é preciso ter ciência do que está por vir. E tanto Ted quanto Robin não tinham.

O casal mais legal do mundo <3

Lily e Marshall mexem muito comigo. Moro junto com a Camila há 3 anos e em breve vamos ter um bebê e sempre que assistimos How I Met Your Mother juntos, fazemos comparações de nossa vida a dois com a de Lily e Marshall. Os dois passam por ainda mais momentos de reflexão sobre idade e vida adulta, afinal, são um casal de namorados que finalmente se casam no final da segunda temporada. A jornada até esse momento é muito bonita, e mostra que o amor precisa transcender muitas coisas pra funcionar, coisas que adolescentes geralmente não estão dispostos.

Lily e Marshall já não tem mais idade pra joguinhos sentimentais, mas mesmo assim quando ainda na primeira temporada eles terminam, ambos se encontram em uma sinuca. Até que ponto o pensar no EU deixa de ser algo necessário para o bem estar de um casal e se torna uma doença? Até que ponto sonhos de nossa adolescência devem ser colocados como prioridade em uma relação?

É incrível como How I Met Your Mother coloca na mesa muitas reflexões sobre esse momento de nossa vida que, infelizmente, não podemos mais contar com o colo da mamãe. É uma fase ótima da vida, onde passamos a dar importância a coisas que merecem importância, dormimos melhor, comemos melhor, não gastamos tempo tentando se provar para desconhecidos ou mentir para ser aceito. É a vida adulta chegando ao seu começo, e cara, ela não é tão ruim assim. Te garanto.

E cara,  How I Met Your Mother ainda é engraçado pra car#lho!

Você gosta de filme de sustinho? Então não vá mesmo ao cinema ver A Bruxa

A Bruxa não é um terror para pessoas acostumadas a sustinhos e câmera tremida

5 de março de 2016

Vivemos em uma época onde cada vez mais se contesta a influência da religião em nossas vidas. São batalhas desde o direito ao aborto, a coisas como tirar “Deus Seja Louvado” das cédulas de Real. O filme vencedor do Oscar é sobre uma investigação jornalística que expõe a Igreja Católica. O ser humano do século XXI pode escolher viver uma vida longe do divino, mas no século XVII as opções não eram tantas assim.

A igreja não era simplesmente o lugar físico onde fiéis iam aos domingo. Era a própria sociedade em geral, seus dogmas e ensinamentos ditavam o modo de viver. Não existia política, normas sociais ou leis. Tudo era definido pelas escrituras, ou pelo que se entendia delas. O mundo vivia em uma era de escuridão, a chamada Idade Média ou Idade das Trevas (termo contestado por historiadores, diga-se de passagem) foi um período na história da humanidade onde a noção de Deus, Diabo e fé eram o que norteava a população.

A Bruxa é um filme que explora essa era onde o medo do homem era definido pela sua escuridão espiritual. O terror não está no óbvio ao invocar demônios ou manifestações fantasmagóricas, mas sim por mostrar ao espectador uma família perturbada pela própria crença, propagada ao longo de séculos, e que foi estabelecida nos EUA com a chegada dos Puritanos da Nova Inglaterra pelos meados de 1600.

Os puritanos eram uma versão radical do protestantismo e não tinham vínculos com a igreja católica. Esse fanatismo é mostrado em momentos chaves de A Bruxa (desde uma simples caçada entre pai e filho, até um jejum), tudo feito para você se situar na cultura da época. Para entender esse terror, é de extrema importância mover sua mente até o ano de 1630, data que se passa o filme. O pecado e a culpa eram fardos a serem carregados ao longo da vida, e o temor de não conseguir o perdão de Deus transformava a realidade dessas pessoas em um verdadeiro pesadelo.

A Bruxa então parte desse princípio para criar uma atmosfera de tensão, colocando a família recém expulsa da colônia em uma floresta isolada. O trabalho de direção de Robert Eggers é fantástico e em momento algum se entrega ao modo operandis do cinema pastelão de horror: jumpscares, câmera tremida, membros decepados e CGI abusivo para trazer a tela criaturas horríveis. A Bruxa vai contra tudo que está aí, e por isso é fantástico. É cinema, não entretenimento barato pro fim de semana.

O terror e o medo vem dessa escuridão em que os personagens se encontram, da floresta que parece ter vida, da fantástica trilha sonora que há tempos não ouvia nada parecido. A Bruxa é também um filme belíssimo, a fotografia é certeira em nos mostrar um mundo cinza, escuro, assim como era a vida dessas pessoas. Não é gratuita: a luz do Sol parece nunca brilhar para essas pessoas, e de fato não brilhava. O medo, seja do inferno ou de desagradar a Deus, impedia a maioria deles de levar uma vida de conforto mental.

Esse medo do desconhecido era tamanho que acabava se materializando. Não por menos, a chamada Inquisição levou mulheres a fogueira condenadas por bruxaria (alguns falam em centenas, outros em milhares). Thomasin, a filha mais velha que vive em pecado, pois agora é mulher e menstrua, é o fio condutor para se entender a proposta de Robert Eggers, que além de diretor é roteirista.

Vista como uma bruxa, Thomasin é perseguida e julgada pela própria família, e seu final pode ser interpretado como a realização do mito. A história torna-se ainda mais amedrontadora quando sabemos que o roteiro foi construído com base em relatos da época. Chega a ser bobo em 2016 temer bruxaria ou bodes amaldiçoados, mas isso foi uma realidade séculos atrás.

A Bruxa é um filme terrível para o público que de uns anos pra cá se acostumou com o terror de susto, de documentários fakes, de câmera tremida e muito gore. É óbvio que esse mesmo público não iria digerir bem A Bruxa. Por expor a escuridão que o ser humano viveu (alguns ainda vivem), A Bruxa também expõe a escuridão terrível que o cinema passa. Criou-se a expectativa de um filme que apelaria pelo medo fácil. E os que foram buscar isso se frustaram… pra minha felicidade.

A bruxa que atormentou milhões de seres humanos por séculos ainda vive, está do lado de fora e pode te destruir se você deixá-la entrar. A escuridão em que ela se apoia não é aquela que surge quando as luzes se apagam, mas sim quando você se afasta daquilo que te ilumina. Por anos eu estive dentro dessas trevas e todas as noites sentia o sussurro convidativo da bruxa… mas hoje… hoje não mais.

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