Amigos do Fórum - Página 8 de 340 - Cultura pop e entretenimento todo dia

A Batalha dos Bastardos não é apenas o melhor episódio de Game Of Thrones

É também aquele tipo de episódio que aquece a alma de quem sempre torceu pelo bem

21 de junho de 2016

História pura. O episódio do dia 19 de junho de 2016 é história na televisão. A Batalha dos Bastardos não impressiona apenas pelos números de produção ou por ser tecnicamente perfeita. Isso é apenas o corpo, a alma desse episódio é o bem vencendo o mal. Quer dizer… essa coisa de bem e mal não é tão simples assim em Game Of Thrones, então vamos dizer que a alma desse episódio foi ver nossos personagens favoritos dando a volta por cima.

A Batalha dos Bastardos mostrou a que veio nos primeiros minutos e ficou claro que a direção Miguel Sapochnik iria nos conduzir a mais um momento épico. Em 2015 foi das mãos dele que saiu Hardhome (S05E08), que até o último domingo, era a melhor sequência de luta dentro da série.

Hardhome mostrava várias características do diretor que aqui ganhariam um peso ainda maior. Miguel Sapochnik situa bem o espectador dentro de tantos confrontos para criar cenas que enchem os olhos. Mas a maior qualidade está em instalar a completa tensão. Hardhome foi assim e A Batalha dos Bastardos beirou o absurdo.

O episódio que abre com uma espécie de bomba sendo arremessada em Meereen já deixa claro essa tensão. Daenerys finalmente está de volta e pronta para agir. Quando ela interrompe Tyrion com a frase “já acabou? Podemos começar?” nós sabemos que a história iria, de fato, começar. O pouso de Drogon foi uma das coisas mais visualmente belas que vi na televisão. O filho finalmente domado pela mãe. Emocionante vê-los cruzando os céus, dessa vez na companhia dos dois irmãos. Quem serão os escolhidos para montar Rhaegal e Viserion.

The Battle of Bastards (S06E09)

Ao Norte, a hora de batalhar por Winterfell chegou. A Batalha dos Bastardos começou há mais de seis anos, quando Jon Snow saiu rumo a Muralha e Sansa viajou para o Sul. Desde então cada Stark trilhou um caminho esburacado para chegar até aquele momento. Jon sempre foi diminuído e teve que lutar para conseguir cada sinal de respeito. Já Sansa veio sendo dilacerada aos poucos. Mas chega, era hora de voltar pra casa.

A Batalha puro espetáculo, mas sem deixar de ter alma. Como senão bastasse toda a carga dramática que ela trazia consigo, ainda tivemos a morte do garoto Rickon. É claro, você irá dizer que ele deveria correr em zig-zag. É claro que vai. Mas era uma criança, aprisionada por um sádico e libertada para correr ao encontro do irmão. Sério que você ainda cobra raciocínio dela?

Jon Snow é um herói. A cena em que ele se empunha sua espada e fica cara a cara com a avalanche de cavalos é maravilhosa. É poesia pura. Pelo Norte! Visualmente bela e perversa, A Batalha dos Bastardos mostra que a televisão nunca deveu nada ao cinema. Produção impecável, e Miguel Sapochnik conseguiu colocar em tela toda a dor e perversidade da guerra. Não foi fácil olhar para pilhas e pilhas de corpos.

No fim, veio de Sansa a ajuda necessária. Os Boltons foram derrotados, a bandeira dos Stark voltou a tremular em Winterfell, e Game Of Thrones entrou para a história.

Orange Is The New Black: quantas vezes você perdeu a cabeça?

Como é possível uma série ser tão CERTEIRA nos assuntos abordados?

21 de junho de 2016

A cada episódio a prisão Litchfield se mostra mais filosófica que física. A cada nova história contada aquele lugar se transforma em uma espécie de purgatório onde toda a diversidade humana está destinada a se encontrar para transcender as diferenças e entender uns aos outros. Ao entrar ali, você é despido de todas suas regalias e privilégios, para finalmente, nu, mostrar quem realmente é.

Jenji Kohan, criadora da série, entende perfeitamente o mundo de possibilidades que tem em mãos. Orange Is The New Black em momento algum de suas quatro temporadas se entrega ao óbvio, a caricatura, ao clichê. A inteligência que suas personagens são conduzidas é de uma precisão única na televisão. Episódios como “It Sounded Nicer in My Head” (S04E07) são emocionalmente poderosos sem perder a dignidade de ser entregar ao dramalhão.

Como se todos os temas já abordados não fossem o suficiente (de transfobia a intolerância religiosa), Orange Is The New Black decide desvendar os mistérios da loucura. Ou aquilo que nós, ditos sãos, definimos como loucura. Lolly não é apenas a melhor personagem dessa temporada, mas também a mais apaixonante. Entender sua maneira de enxergar o mundo é uma lição que deveríamos anotar com papel e caneta em mãos.

Lolly não precisou ser presa para ser descartada. Nos primeiros sinais de que sua mente não se encaixava na sociedade, foi esquecida, deixada de lado, levada de mãos em mãos. Afinal, alguém precisava assumir a bronca, não é mesmo? Nas ruas, aprendeu controlar seus demônios a sua própria maneira. Servia café em troca de objetos ou alguma ajudinha quando seus surtos fossem mais poderosos do que ela mesma.

It Sounded Nicer in My Head (S04E07)

Ter poder sobre a própria mente é um problema que atinge a todos, mas em doses diferentes. Quantas vezes te viraram as costas quando você “perdeu a cabeça”? Por mais que a história de Lolly possa parecer distante da nossa realidade, basta notar o paralelo que vai sendo traçado com Piper.

A garota inocente se deixou levar pela vaidade ou uma mentira que ela mesma contou. Piper tentou mascarar sua verdadeira natureza, entrou em um jogo perigoso onde é preciso muito mais que palavras bem encaixadas em uma frase pra vencer. E ela pagou o preço. Em algum momento nos esquecemos de quem somos e aí o abismo fica mais tentador. E assim também somos esquecidos.

E segue a vida em Litchfield.

Tem dias que você perde sua cabeça, mas tem dias que tudo que precisamos é entrar em uma caixa de papelão e sonhar com o passado desperdiçado….

O que aprendi quando resolvi passar mais tempo na cozinha

Levando a série Cooked pro meu dia-dia

21 de junho de 2016

quando meu pai matava um boi, a gente pegava o suficiente pra nós e dividíamos com os vizinhos. E quando um vizinho matava um boi, ele fazia o mesmo, assim, sempre tínhamos carne” disse minha mãe enquanto conversávamos sobre como era a vida dela antes da industrialização pesada dos alimentos chegar lá no interior. “a única coisa que me pai comprava era um saco de sal e outro de açúcar, o resto era tudo do sítio ou alguma troca com vizinhos e amigos“.

Naquela manhã de domingo eu estava tentando pela primeira vez fazer pão. Um pouco de farinha, água, ovos e muita, mas muita sova.  Algumas horas no sol pra massa crescer, alguns minutos no forno e pronto, lá estava o pão quentinho que eu mesmo fiz. Uma sensação de orgulho tomou conta, e por mais delicioso que aquele pão era com manteiga derretida, nada era melhor do que essa pequena vitória.

Fazer o próprio pão ao invés de correr no supermercado e comprar pronto, não é apenas uma tarefa divertida. É algo com raízes poderosas e naquelas horas que passei ao lado da minha mãe, pude entender de fato o que significa se reaproximar dos alimentos. Experiência que resolvi testar após assistir Cooked, série do Netflix que mexeu completamente comigo. Era hora de colocar a preguiça de lado e botar a mão na massa.

Cooked é TUDO que acredito em cultura pop: bem feito e que influencia diretamente sua maneira de pensar

Decidi que iria substituir três alimentos que consumo constantemente e só compro prontos, pela minha própria versão. Os escolhidos foram molho de tomate, pão e macarrão. Minha missão não era apenas consumir menos química ou economizar dinheiro, era redescobrir minha relação com os alimentos e o que vem acompanhado com isso.

Cooked foi total inspiração. São 4 excelentes episódios mostrando o que há por trás da industria dos alimentos e como o tempo todo somos levados a acreditar que cozinhar é perda de tempo, difícil ou você simplesmente jamais irá fazer coisas tão bonitas quanto aqueles pratos da tv. Programas de culinária mais distanciam você do alimento que aproximam, o astro é sempre o apresentador(a), todo charmoso, engraçadinho, criando receitas mirabolantes. E você ali sentado, provavelmente comendo um salgadinho ou esperando o delivery.

Programas como Master Chef chegam a durar quase três horas e durante esse período, é possível notar a quantidade de pessoas que preferem comentar sobre a comida alheia do que cozinhar a própria. É a lógica por trás desse distanciamento: quanto mais você deixar de cozinhar e precisar comprar tudo pronto, ou pagar pra alguém cozinhar pra você, melhor pra indústria.

Mas qual o problema disso tudo afinal? Óh, estamos sendo engolidos por um sistema malvado que deseja nos tornar escravos? É a visão mais acalorada, mas pra mim existe outro significado. Deixar de cozinhar não significa apenas consumir mais produtos processados, turbinados de sódio ou açúcares, mas sim deixar de ter com sua família momentos de convivência. Desde os tempos bíblicos, a ideia de partilhar o pão era algo maior do que simplesmente todos de barriga cheia. Significava a união, a empatia, a troca de carinho.

Durante as horas que conversei com minha mãe sobre sua infância enquanto sovava meu pão, não estávamos apenas falando sobre comida. Era mãe e filho conversando, estreitando laços, transmitindo experiências, absorvendo cada momento. Desde uma pequena pausa para ferver a água para o café até a preparação de um almoço para toda família, esses momentos de união que cozinhar promovem não devem ser vistos como algo trabalhoso. A desculpa “porque a gente precisa cozinhar se podemos sair pra comer fora?” deveria ser descartada pra sempre.

Aprendi a fazer um delicioso molho de tomate usando apenas azeite, alho, cebola, tomate e manjericão. Aprendi a fazer um macarrão leve com farinha e ovos. Meu pão? Minha nova paixão. Farinha, manteiga, ovos, leite morno. O trabalho? Que trabalho? Enquanto cozinho deixo minha filha perto de mim, a Camila é usada como cobaia para testes. Praticamente tripliquei o tempo que passo cozinhando, deixamos de comer muita porcaria enlatada e economizamos com restaurantes.

No fim, o que aprendi passando mais tempo na cozinha foi que posso passar menos tempo olhando o celular ou grudado na televisão. Aprendi que posso ouvir histórias enquanto corto cebola. Aprendi que posso melhorar minha alimentação. Aprendi que posso ficar mais próximo de quem amo.

quando você voltar vamos aprender a fazer manteiga pra comer com esse pão, minha mãe tinha uma receita” disse minha mãe. De vó para mãe, de mãe para filho. Um dia a Alice, minha filha, irá aprender tudo isso. E vai ouvir histórias da bisavó que não conheceu, da sua vózinha, e de seu pai. Um dia vamos fazer pão e ela irá ouvir mais histórias.

Será divertido…

A Batalha dos Bastardos: o dia que Game Of Thrones entrou pra história da televisão

19 de junho de 2016

19 de junho de 2016

Game Of Thrones, 59 episódios depois: a história foi feita. Daqui há 50 anos quando falarem sobre televisão, irão se lembrar da Batalha dos Bastardos. A adaptação da obra de George R.R. Martin divide agora com Sopranos, Breaking Bad, Mad Men, The Wire e outras produções o Olimpo da televisão. Hoje a cultura pop se curvou diante dessa espetacular série.

A Batalha dos Bastardos não é apenas um acontecimento dentro da própria série, mas sim em tudo que a gente conhece como tv, streaming, séries, bons conteúdos, carinho e respeito. É um episódio que cria lendas.

O sexto ano de Game Of Thrones soube como poucos criar uma expectativa que foi tão bem recompensada, que agora, parece que tudo estava claro desde o início. Alguns duvidaram do que a série poderia entregar depois da sequência de três episódios onde as peças se moveram lentamente. Alguns acharam que os livros iriam fazer falta. Alguns acharam que depois de tantos anos, Game Of Thrones não saberia mais empolgar…

A Batalha dos Bastardos declara a morte de todos aqueles que um dia ousaram duvidar de Game Of Thrones. Esse S06E09 é o maior episódio em todo a série. Maior em números de produção, em momentos épicos, em direção, em tudo. Foi uma ópera nunca antes vista.

Como se não fosse suficiente o choque entre Jon Snow e Ramsay Bolton, Game Of Thrones ainda reservou a glória para suas mulheres. Sansa Stark se vingou. Vingou seu corpo, sua família, sua casa. Tudo que tiraram da pobre garota que deixou Winterfell adornada em inocência e luxosos vestidos, foi devolvido com sangue.

Daenerys cortou os céus Meereen acompanhada de seus três filhos, que voaram e lembraram mais uma vez o mundo que onde dragões batem asas, ninguém pode reinar além de sua mãe. A Nascida na Tormenta deu uma demonstração mínima de seu poder máximo. Westeros acha que viu uma guerra? Por favor.

19 de junho de 2016. O dia que Game Of Thrones entrou para a história da televisão.
Obrigado.

Suas palavras desaparecerão, sua casa desaparecerá, seu nome desaparecerá, as memórias sobre você desaparecerão

Mentiram pra você sobre Orange Is The New Black

"é uma série de lésbica", "é uma série pra mulher". Nada disso

19 de junho de 2016

Hoje você conta os dias pela próxima produção original do Netflix, faz memes, piadinhas, maratona tudo de uma vez quando chega. Mas há três anos era diferente, esse relacionamento ainda estava sendo construído, tanto aqui quanto lá fora. House Of Cards tinha feito sua estréia arrebatadora no início do ano, e em julho estreava Orange Is The New Black. Um drama político e uma comédia com doses de drama (ou seria drama com doses de comédia?). Nasciam ali as duas estrelas do Netflix.

House Of Cards encantou fácil seus espectadores. Uma série com Kevin Spacey, mostrando os bastidores da política, com jogos de influência, piscadinha pra tela. Não tinha como não gostar daquilo. Já Orange Is The New Black tinha uma proposta diferente. Seria uma série mais leve, porém com temas mais próximos de nós meros mortais. Na prisão de Litchfield estariam mulheres. Mulheres de verdade.

Já em sua abertura era possível notar os diferentes tons de pele, de gênero, de peso. Orange Is The New Black apresentava seus personagens com um toque bastante humano, e de uma maneira natural (como de fato são) tratava de temas “espinhosos” como identidade de gênero, homofobia, transfobia, machismo, relacionamentos abusivos, aborto, libertação das mulheres (a cadeia não foi escolhida como cenário de graça).

Mas também tocava em assuntos mais cotidianos, como família, amizade, saudade, arrependimento e punição. Eram pessoas comuns se relacionando e vivendo situações comuns. Orange Is The New Black avançava como uma promessa, conquistava mais e mais fãs, e claro, com isso, acabou criando seu próprio clube de admiradores.

Há quem diga que determinada banda até que é boa, o que estraga são os fãs. Parece que o universo das séries anda vivendo esse drama. Todo esse lance de shippar, criar fandons etc, cresce a cada dia. Geralmente quanto pior a série, maior o número de shippadores, quanto mais vazia, maior o fandom. Mas com Orange Is The New Black acontece o oposto. É uma série necessária para os nossos tempos, que ensina lições valiosas sobre diferenças. Mas muita gente cai no conto do fandom

Assim como House Of Cards não é sobre política, Orange Is The New Black não é sobre cadeia cheia de criminosas. É sobre pessoas, mas principalmente sobre ser mulher. Ao colocá-las dentro de uma prisão, Orange Is The New Black tira todos os adornos e caricaturas que já se presume que tenham. O equilíbrio perfeito entre humor e drama, transforma cada uma daquelas detentas em verdadeiras lições de vida. Há muito mais ali que simplesmente a terrível missão da Piper em sobreviver em um ambiente hostil.

É uma série de personagens e histórias. Cada um tem seu valor, seu momento, sua importância. Assim como David Simon transformou Baltimore em um personagem vivo, a prisão (mais como ideia do que física) é a protagonista em Orange Is The New Black. Afinal, o que significa SER e ESTAR livre? É isso que está sendo contato, temporada pós temporada.

Não deixe de assistir. Não deixe de absorver as histórias. Não deixe de ver Orange Is The New Black.

Desisti de Hannibal na terceira temporada

Terceira temporada começa MUITO RUIM. Quero ter boas memórias da série

17 de junho de 2016

Realmente me diverto nos cinemas. Às vezes assisto a uns filmes tão ruins quanto café gelado, mas se por um motivo ou outro ele foi honesto no que prometeu entregar, tudo bem, valeu o ingresso. Porém não tenho essa mesma paciência com séries de tv. Ou ela é no mínimo boa, ou largo mão sem pensar duas vezes. Não tenho paciência pra série ruim, mas que é engraçada, ou tem bons efeitos, ou muito fan service, blá, blá, blá.

Hannibal foi uma série que demorei pra gostar. Tentei assistir três vezes e desisti em todas, mas durante minha licença paternidade, resolvi me forçar a ver pelo menos a primeira temporada completa. Felizmente depois do sétimo episódio Bryan Fuller me conquistou e foram duas temporadas bastante compensadoras.

Aos poucos você vai percebendo o jogo mental e diabólico de Hannibal Lecter, vai entrando na psicose de Will Graham. Até os episódios procedurais tem seu valor no contexto geral, o que minimiza o recurso de assassino da semana (se David Simon assistir Hannibal certamente passará mal em ver a quantidade considerável de serial killers em Baltimore…).

A primeira temporada de Hannibal é bem ok, mas a segunda é ótima. De fato, você entende a devoção dos fãs. Bryan Fuller encontra o caminho certo, e são 13 episódios redondos. Mads Mikkelsen chega a ser assustador de tão bom no papel, a sua elegância como diabo o torna, sem a menor dúvida, um dos vilões inesquecíveis da televisão. Ele rouba a temporada pra si, é impressionante. Will Graham em segundo plano funciona melhor.

A season finale é perfeita. A série poderia acabar ali, terminaria no auge provocando a todos. Ora, onde mais você assiste o vilão saindo vitorioso, em todo seu esplendor? Hannibal se despediria da televisão com o topete erguido, Bryan Fuller seria tema de calorosos debates sobre possíveis novas temporadas. Enfim, era pra cravar ali a história. Mas teve uma terceira temporada.

Ok, isso foi maravilhoso, pqp!

Fuller começou os 13 episódios do terceiro ano sabendo que eram os últimos. A série muda de cidade, de país, e algo que era tratado com sutileza até então acaba se tornando incomodo. Os primeiros episódios entram em uma viagem poética e simbólica tão forçada que beira o ridículo. É como se cada frame fosse alguma representação da mente de Hannibal ou Will. Tudo é feito para parecer algo transcendental na televisão. A mão pesou.

Hannibal sabia flertar com o mistério com uma precisão cirúrgica. Sabia o momento certo de transformar a morte em obra de arte. Conseguiu ilustrar toda a perversão de Hannibal em imagens. E claro, tanto a loucura tomando conta de Will, quanto sua recuperação, foram transpostas de uma maneira belíssima, como pouco se vê.

Os três primeiros episódios foram tão ruins que me senti mal. Detesto ver algo que gosto definhando. Assisti mais um e pra mim deu. Quero terminar Hannibal com o gosto bom na boca. Na primeira vez que escrevi sobre a série, disse que ela era uma entrada mais ou menos com um prato principal espetacular. Quero acabar no prato principal, a sobremesa veio estragada.

Nossos ídolos da infância estão morrendo. E você precisa aprender a lidar com isso

Rubén Aguirre, o Professor Girafales, nos deixou nessa sexta feira dia 17 de junho de 2016

17 de junho de 2016

Ainda tenho fresco na memória o dia que meu avô me contou sobre a morte. Ele explicou que um dia as pessoas que amo não estariam mais ao meu lado. Lembro de correr atrás da minha casa e chorar tão alto que chamou a atenção da minha mãe. Não conseguia conceber essa ideia. Como assim as pessoas se vão e nunca mais voltam?

Meu primeiro contato com a despedida foi em 2000 quando meu pai veio a falecer. Na época com 12 anos tive que aprender a lidar com esse sentimento, na verdade, até hoje procuro aprender. Entender a morte é entender a vida, e mesmo que nunca, jamais, nos acostumemos com essa ideia, é preciso aprender a lidar com ela.

Procurei apoio na religião, na filosofia, na sabedoria dos mais velhos. E mesmo assim ainda sofro quando alguém que amo, admiro ou fez parte da minha infância se vai. Tentamos ser fortes, pensar no amanhã, mas a maior demonstração de respeito que podemos dar é o luto. Ficar triste, lamentar, chorar, não podem ser vistas como algo ruim. É a mais pura demonstração de amor e saudade.

Be Right Back, o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, fala sobre luto e como esse processo de aceitação é importante para seguir em frente. Ao não aceitar a morte e se dar o direito ao luto, Martha, a personagem vivida por Hayley Atwell, é perseguida pelo fantasma do marido, que em Black Mirror ganha a forma física de um robô. É óbvio que o robô é uma simples analogia.

Na vida real o robô é uma memória nostálgica, aquela que não permite que você viva o agora, o amanhã. Minha mãe sofreu e ainda sofre a perda do meu pai 16 anos depois. É claro que todos nós sentimos sua falta, mas aceitar que ele se foi é o grande problema. É talvez um dos grandes problemas que os vivos enfrentam.

Rubén Aguirre, o Professor Girafales, nos deixou nessa sexta feira dia 17 de junho de 2016. O personagem é parte da infância de quem cresceu na década de 80, 90 e 2000. Nossa relação com o Chaves é algo que beira a religiosidade, portanto, saber que nossos ídolos estão partindo dói. E dói muito.

Mas um homem só morre quando é esquecido. Nenhum corpo físico irá viver pra sempre, mas sua obra sim. Não se preocupe em saber onde o Professor Girafales está agora, se preocupe em ele deixou aqui.

Ao Mestre Linguiça, meu muito obrigado.
A todos nós, meus pêsames.

Topo ^