Amigos do Fórum - Página 11 de 335 - Cultura pop e entretenimento todo dia

O nascimento do protagonismo em Game Of Thrones

Oathbreaker (S06E03) deixa pistas óbvias que Jon Snow é sim o grande protagonista em Westeros

11 de maio de 2016

Sopranos foi quem instituiu o protagonismo na televisão ao colocar Tony Soprano como o centro nervoso da narrativa da série e também de todos que estavam ao seu redor. O protagonista é mais do que o personagem principal, ele é quem da as cartas, dita os rumos e conduz todos os outros personagens. Sem ele a série simplesmente não funciona.

Mas pouco tempo depois veio um cidadão chamado David Simon e bagunçou novamente a tv com The Wire, série sobre o departamento de homicídios. Diferente de Sopranos, The Wire não tinha uma figura central, forte e condutora. O protagonismo ali estava nas mãos da cidade de Baltimore, era ela quem David Simon queria explorar, ir a fundo, entendê-la. As maiores séries já feitas (The Wire e Sopranos) instituíram duas maneiras distintas de contar histórias.

Oathbreaker é PERJURO: aquele que perjura, que falta a seu juramento

Game Of Thrones seguia mais ou menos os passos de The Wire ao colocar diferentes núcleos em diferentes pontos do mapa. Você acompanhou dezenas de personagens espalhados ao Norte, em King’s Landing, por Essos e seus derivados. Era difícil, portanto, estabelecer um protagonista. Todos tinham sua participação na Guerra dos Tronos, com exceções de alguns destaques que sempre demonstraram uma importância maior que os demais.

Três deles surgiam como grandes fios condutores: Jon Snow, Daenerys e Tyrion. Todos com problemas típicos de heróis. Um era bastardo, a outra órfã desprotegida em uma terra desconhecida e outro um anão rejeitado pelos pais. Ao longo das temporadas eles foram se desenvolvendo e ganhando histórias particulares que ajudaram o público a escolhe-los como favoritos.

Mas Tyrion virou consultor de Daenerys, que nunca demonstrou talento pra ser uma líder. Eis que no Norte, o jovem bastardo surgia no horizonte como um homem sábio e guerreiro, ponderado a ponto de fazer decisões histórias para alguém de seu posto, ao trazer para o lado de cá da Marulha os selvagens. Jon Snow percebeu que uma guerra maior está prestes a começar e fez suas escolhas.

Em Oathbreaker (S06E03) o protagonismo de Jon Snow praticamente é selado. O personagem voltou a vida, abandonou seu juramento e agora está “livre” para tomar seu lugar de direito. Ele viveu todas as fases importantes para se tornar essa figura central em Game Of Thrones.

A teoria que ronda todos os fãs dos livros e agora da série não foi confirmada. Se o roteiro fez esse flerte é porque provavelmente ela será revelada, em uma season finale daquelas tavelz. Se Jon Snow é realmente o GELO e o FOGO é questão de episódios pra isso se confirmar.

Então veremos o alvorecer do grande protagonista de Game Of Thrones.

Hannibal é uma série MUITO linda

Belíssima fotografia é um personagem vivo na série

10 de maio de 2016

A fotografia deve ser parte da narrativa de qualquer obra, seja ela cinematográfica ou feita em formato de série. Ela deve adicionar elementos e criar em nossa mente sensações e ideias que não precisem ser explicadas através de diálogos. As coisas estão ali, sendo contadas através de imagens.

Breaking Bad é talvez o maior exemplo de como uma boa estética só adiciona ainda mais qualidade a uma série. Foi graças ao diretor de fotografia Michael Slovis que a história de Vince Gilligan ganhou identidade própria. Aliás “Identidade própria” é uma das palavras chaves que também resumem Hannibal, série que comecei a prestigiar recentemente.

A estética de Hannibal tem um peso ainda maior quando comparada a outras obras, como de canais a cabo por exemplo. A série é da NBC (canal aberto) e não desfruta de certas liberdade que HBO, AMC e Showtime. É aí que o trabalho do diretor de fotografia James Hawkinson se torna brilhante, praticamente uma obra de arte na televisão.

O tema de Hannibal é forte. Psicopatas e agentes do FBI investigando cenas de assassinatos. Mostrar isso na tv sem que seja apenas agressivo, sujo e horrível não é uma tarefa simples, e Hawkinson transforma tudo isso em beleza. Os assassinos em Hannibal ganham status de artistas graças a uma mistura perfeita de produção, fotografia e trilha sonora.

Você não tem nojo pois é belo. É surreal dizer algo assim, mas nunca pensei que cadáveres ficariam tão bem arrojados se grudados com silicone (cena do S02E02). Hannibal não choca pelo exposição, mas sim pela psicopatia daqueles que tratam a vida humana como pincéis ou argila para compor suas obras.

Outro ponto alto da série é como Dr. Hannibal Lecter é sempre conduzido como um ser quase divino devido a sua inteligência e elegância. Seus olhares, sua precisão cirúrgica para se portar e claro, seus momentos na cozinha que são um balé de sangue, sabores e desconforto.





Hannibal é puta série bonita.

37 coisas que acontecem em todos os episódios de Game Of Thrones

Vai começar mais um episódio inédito de Game Of Thrones...

10 de maio de 2016

1. TARAM TARAM TARAM TARAMMMM
2. cara não consigo pular essa abertura, é muito boa
3. PEITOS
4. será que alguém morre hoje?
5. alguém morre
6. fãs dos livros já estão reclamando nas redes sociais
7. quem é essa personagem mesmo?
8. eu realmente não sei quem é esse personagem
9. como cresceu esse menino Bran Stark
10. os Stark não eram protagonistas?
11. PEITOS
12. fãs dos livro diz que nunca mais assiste a série
13. fãs dos livro disseram isso na temporada passada
14. Daenerys pare de se apresentar a gente não tem o episódio todo

E eu sou Daenerys, nascida na Tempestade, Daenerys da zZzZzZzZzZzZ

15. quem é esse personagem?
16. WINTER IS COMING
17. mas vem mesmo ou é só uma frase de impacto?
18. esse episódio tá chato, não tá acontecendo nada
19. CARALHO COMO ASSIM??!?!?
20. fãs dos livros dizendo que no livro é diferente
21. só não matem o Tyrion
22. ainda tem fã dos livros enchendo o saco?
23. já tem gente reclamando de spoiler?
24. assinar a HBO ninguém quer né?
25. quem é esse personagem mesmo?
26. PEITOS
27. SANGUE
28. TRAIÇÕES
29. HODOR

30. tadinho do Sor Jorah
31. fã do livro reclamando
32. vou assinar HBO ano que vem não aguento mais tanto spoiler
33. já tem link pro torrent?
34. alguém sabe que horas sai a legenda?
35. NÃO! NÃO! NÃO!
36. PQP NUNCA MAIS ASSISTO ESSA SÉRIE
37. CARALHO NÃO VOU AGUENTAR ESPERAR ATÉ SEMANA QUE VEM

Faltou alguma coisa? Deixa ai nos comentários (mas antes que algum fã diga que nos livros é melhor).
Depois disso, reveja nossa série de posts:

Pare de nostalgia, os novos desenhos da Cartoon Network são ótimos

Atuais atrações tem uma preocupação com a diversidade e igualdade

9 de maio de 2016

O nostalgismo é um dos maiores fenômenos da minha geração, aquela que cresceu nos anos 80/90 e hoje, graças a internet, tem fácil acesso a produtos relacionados da época. Passamos o dia comparando as nossas músicas com as de hoje, provando que os brinquedos eram melhores, que os filmes eram mais ousados e os desenhos mais divertidos.

É uma resistência em perceber que os tempos são outros e as crianças/adolescentes de hoje em dia tem outras noções do que é diversão. Mas na boa, vai dizer que se tivesse internet em 1994 você passaria a tarde toda vendo TV Manchete? Tá bom. Essa nostalgia em excesso pode ser prejudicial a partir do momento que ela nos impede de conhecer coisas novas, ou melhor, admirar a qualidade dos produtos culturais dessa geração.

Cresci no interior e nem parabólica tinha minha casa. Não conheci a tal “Era de Ouro da Cartoon” que contava com um ótimo panteão de animações, mas agora em 2016 estou tendo a oportunidade de ver seus atuais desenhos graças a minha licença paternidade. E poxa vida, como me deixa feliz perceber que as atrações do canal são ótimas, leves e completamente preocupadas com questões que na minha época não tinha tanta visibilidade, como igualdade de gênero e diferentes formações de família.

A Camila é viciada na Cartoon e fã de carteirinha de Hora da AventuraApenas um Show, Steven Universo, Os Jovens Titãs, Gumball e por aí vai. Aos poucos ela foi me apresentado aos desenhos e sem perceber fui me apaixonando por eles.

Deu pra perceber a diversidade nos personagens e a maneira natural que tratam essas diferenças. Apesar de toda loucura que alguns deles possuem (Hora da Aventura que o diga) há muito sendo ensinado. Acredito que educação é algo que deva partir dos pais, mas e quando a Alice crescer e começar a consumir desenhos, filmes, séries etc? O mínimo que espero é que esses produtos ofereçam mais do que apenas entretenimento, tenham substância e jamais nadem contra os valores que eu a Camila acreditamos.

Princesa Caroço: melhor princesa

Por exemplo, assisti a um episódio de Steven Universo e achei de uma inteligência única, algo que serve não apenas para crianças, mas pra adultos.

É quando o StevenConnie marcam um jantar para que seus pais se conheçam. Steven que é órfão de mãe foi meio que “adotado” por três guerreiras espaciais. Steve fica tenso com medo dos pais de Connie não entenderem sua família, então pede que as três guerreiras se fundam em uma mãe.

No jantar elas aparecem como um monstro gigante com vários braços e causa espanto nos pais de Connie, mas que logo depois de notar o carinho que elas tem por Steven (mil anos sem tv, LOL) percebem que família é aquela onde mora o amor. Ora, a referência é óbvia a crianças que tem pais adotivos ou homossexuais e como isso ainda choca (a figura do monstro simbolizando a visão que muitos tem de famílias assim). É fantástico.

Cultura pop boa é aquela que transforma desenhos divertidos em desenhos divertidos e inteligentes. Que bom que a Alice irá crescer em um mundo com cada vez mais preocupado com a diversidade e diferenças, e te prometo filha, não vou dizer que na minha época as coisas eram melhores.

Ok, duvido que existirá uma série melhor que Breaking Bad quando você estiver velha.

A internet não tem culpa se você não teve tempo de ver Game Of Thrones

Números assustadores da audiência de Game Of Thrones só provam uma coisa: não existe spoiler de evento ao vivo

9 de maio de 2016

E lá vamos nós debater pelo sexto ano consecutivo algo que já deveria ter amadurecido na mente do fã de série. A questão da moralidade do spoiler retorna com Game Of Thrones e alguns números iniciais de audiência só confirmam como é impossível frear tantos espectadores de comentar o que estão vendo.

No Brasil o serviço NOW da NET divulgou um aumento de 180% de audiência em relação a temporada passada, com 300 mil visualizações nos primeiros episódios. Na HBO a audiência foi de 10,7 milhões de pessoas na season premiere, e o site TorrentFreak liberou dados ainda mais monstruosos: 13 milhões de downloads ilegais. Resumindo: é muita gente assistindo.

Não existe spoiler de evento ao vivo

Game Of Thrones é um sucesso absurdo de audiência, aqui e lá fora. E pela primeira vez na história a HBO resolveu liberar seu serviço de streaming por 30 dias afim de frear a pirataria e estimular novos assinantes. Sendo assim, o número de espectadores por episódio só aumenta semana pós semana, e Game Of Thrones não é mais uma série de nicho, com um público específico. É um evento popular.

Acontece que o fã de série ainda tem aquela visão de 10 anos atrás, quando a maioria dos seriados nem chegavam aqui. O episódio passava nos EUA e demorava alguns dias pra estar 100% legendado e disponível pra download. Pouca gente assistia, não existiam redes sociais como twitter e facebook (se existiam, não eram populares aqui) e pra se discutir ou ter informações sobre a série, era necessário ir até algum grupo (comunidades, fóruns etc).

Você não acordava na manhã de segunda feira e tinha uma foto do Jon Snow morto no seu scrapbook do orkut. Série era coisa de nerd, do cara que corria mesmo atrás. Mas os tempos mudaram. O aumento de assinantes de tv a cabo e principalmente a chegada de uma internet mais rápida e acessível, possibilitou que mais e mais pessoas tivessem a oportunidade de conhecer outras coisas além de novelas.

O novo fã de série assiste e comenta em tempo real

O novo fã de série chegou na era do compartilhamento. Ele assiste em tempo real e comenta em tempo real. E séries como The Walking Dead que chegam a bater audiência de tv aberta não são vistas apenas por um determinado grupo de pessoas, seu vizinho boleiro e o sobrinho vida loka também assistem.

Tive uma noção do poder de Game Of Thrones quando fui até minha cidade natal, interior do Paraná, com 3 mil habitantes. Lá praticamente todos meus amigos acompanham a série e comentam em tempo real nos grupos de WhatsApp. Azar de quem não está na frente da tv e resolve entrar no grupo justamente na hora de que começa um novo episódio.

O grande público está acostumado com revistas contando o final da novela uma semana antes. Esse grande público não está nem aí se você não teve tempo de correr pra televisão às 22hrs e assistir o novo episódio de Game Of Thrones.

Ainda existe outra questão que é ainda mais impossível de evitar: o marketing. Em 2015 durante a estréia da terceira temporada de House Of Cards, um bom número de pessoas reclamaram que o Netflix estava dando spoilers que Frank Underwood tinha se tornado presidente. Toda a campanha viral se baseava em Frank fazendo promessas e sentado na cadeira do presidente.

Na época o Netflix respondeu com um vídeo bem humorado, mas ficava o aviso: o canal/serviço de streaming não pode esperar que você assista algo de um ano atrás pra explorar a expectativa da audiência. A própria HBO logo após o episódio Home passou a usar a imagem de Jon Snow em todas as campanhas de mídia. E óbvio, muita gente ficou de pernas pro ar por causa do “spoiler“.

Debater se spoiler é legal ou não já virou perda de tempo. Particularmente evito o máximo possível, tanto nas redes sociais quanto no blog, mas não é mais o “eu acho” que está em jogo, e sim a noção que séries e filmes são cada vez mais populares, e se existe algo impossível de controlar é o POVO.

É preciso desapegar de algumas convicções, da noção de clubinho fechado, dessa vibecoisa de nerd“. Daqui a pouco você vai tomar um “spoiler” do cobrador do ônibus e vai entender o que estou falando.

F*ck Society: a verdade escondida no discurso de Elliot em Mr. Robot

Como o discurso de Elliot em Mr. Robot conversa com o de Bing em Black Mirror

6 de maio de 2016

Um dos movimentos que faz o entretenimento girar é aquele que contesta o próprio entretenimento. A cultura pop se alimenta muito bem daqueles que se prestam a denunciá-la. Um exemplo fácil são vlogueiros que esbravejam em frente as câmeras contra determinados artistas ou manifestações culturais, alegando que os mesmos possuem uma armadura de falsidade, ou que de algum modo sua popularidade é prejudicial a uma qualidade que ele tem como válida.

É um discurso que tem os mesmos objetivos finais que um cantor teen fazendo biquinho pra foto: fama, dinheiro ou alimento para o ego. Assim, logo que a cultura do entretenimento se depara com alguém que a crítica, ela encontra um jeito de engolir e transformá-lo em um produto. É o que o episódio “Fifteen Million Merits” de Black Mirror explica muito bem.

Quando a pessoa se coloca como “messias da verdade” automaticamente é incluída dentro do mesmo sistema que ela critica. É então que chegamos a Mr. Robot e o discurso de Elliot. Ele rodou o facebook nessa semana, foi compartilhado em várias fanpages, seguido de comentários como “ele disse tudo” etc.

O tal discurso acontece em eps1.0_hellofriend.mov (S01E01) quando nosso protagonista vai a uma consulta com sua psiquiatra.

O que você precisa entender em um primeiro momento é que Elliot não é nenhum salvador, revolucionário ou anjo iluminado. Elliot é um homem perturbado com uma noção de justiça distorcida. Seu discurso impressiona pelo ataque a diversas estruturas do nosso cotidiano. Da idolatria a empresários ao valor que damos as redes sociais. São palavras de impacto, mas afinal Elliot, porque isso acontece conosco?

A resposta está na segunda parte do discurso. “Isso não é novidade. Sabemos porque fazemos isso. Não é porque Jogos Vorazes nos faz feliz, mas porque queremos ficar sedados“. É aqui onde a verdade de Mr. Robot se encontra com a de Black Mirror:

Nós compramos coisas que nem existem. Mostrem-me algo real, gratuito e bonito. Não tem, não é? Isso nos quebraria. Estamos muito anestesiados para isso” – Black Mirror S01E02

Sedados. Anestesiados. O que faz Elliot em Mr. Robot ou Bing em Black Mirror discursar com tanto fervor é a noção de que ambos estão acordados, vivendo fora dessa ficção criada por um sistema que nos escraviza através de falsas impressões de bem estar. Um sistema que nos entretém dia e noite e cria dias especiais para mães, pais, namorados e deuses.

Acontece que ambos estão sedados. Ambos são parte de uma máquina que se alimenta desses discursos. E isso é uma das coisas que perturbam Elliot, a noção de pequenez perante algo invisível impossível de destruir. Tanto que as palavras não saem do imaginário de Elliot, ele sabe que no fundo, não irá mudar nada.

– “qual é o problema?” pergunta a psiquiatra
– “nada” diz Elliot com um sorriso sarcástico

Um computador em mãos ou caco de vidro, Elliot e Bing… ambos foram engolidos.
Black Mirror e Mr. Robot são geniais.

A assustadoramente bela e incômoda Hannibal

Série consegue transformar corpos mutilados em verdadeiras obras de artes

5 de maio de 2016

Policias, agentes do FBI, médicos, enfermeiros e advogados são as profissões favoritas das série procedurais, aquelas que apresentam um caso semanal a ser resolvido até o fim do episódio. Um formato bastante aceito na tv, afinal de contas, o espectador médio não precisa se preocupar em entender como aquele universo funciona e as motivações de seus personagens para curtir aqueles 40, 50 minutos de show.

Diferentes de dramas como Breaking Bad e Game Of Thrones que seguem uma linha narrativa onde perder um episódio significa se perder da série, as procedurais criam semanalmente casos onde se sai do nada pra se chegar a lugar nenhum. Pra isso os personagens precisam vir prontos: são médicos habilidosos e detetives genais que estão sempre um passo a frente.

No meu primeiro contato com Hannibal acabei caindo fora no terceiro episódio da primeira temporada. O início deixava entender que seria mais uma série com mais um super detetive, com super poderes de decifrar crimes, com super vilões e super assassinatos. Bem, não estava de todo errado. Após assistir aos 13 primeiros episódios, Hannibal parece uma refeição que começa com uma entrada ruim, mas serve um bom prato principal.

Hannibal: uma entrada ruim seguida de um bom prato principal

O “assassinato da semana” é recompensado por uma estética belíssima e uma trilha sonora medonha. A maneira como tornam o horror em praticamente arte é uma boa escapatória para mostrar vísceras e pessoas mortas, afinal, Hannibal é da NBC, canal aberto, que não desfruta, por exemplo, da mesma liberdade de The Knick que é do Cinemax. Palmas para James Hawkinson, diretor de fotografia, que consegue essa proeza.

Hannibal uma série incômoda. Quando Hannibal Lecter está cozinhando, uma mistura de nojo e encanto toma conta do ar (aquele fígado não é bem de boi). Você consegue ler toda crueldade do psiquiatra sem que ele mate ninguém frente às câmeras (na verdade mata uma vez, mas é legítima defesa etc). Existe uma beleza em Hannibal difícil de ser digerida, é algo que você sente vergonha de achar tão lindo, como um totem feito de membros humanos ou uma hortinha de cogumelos plantada em corpos.

Hannibal ainda investe pesado no psicológico de Will Graham, o ex-detetive que retorna a campo como consultor do FBI, após do convite de Jack Crawford (Laurence Fishburne subaproveitado). Apesar da cafonice de mostrar sua habilidade de recriar em mente as ações de uma assassino, Will é uma espécie de fantoche de Dr. Lecter, interpretado de uma maneira brilhante por Mads Mikkelsen, ator que esse ano estará em Dr. Estranho e Rogue One.

Will é um sujeito perturbado, uma verdadeira bomba relógio e é Dr. Lecter quem resolve dar corta. Depois dos complicados primeiros episódios que servem como isga pra nos fisgar, a série dedica mais tempo a relação entre ambos. Gosto de personagens que viagem dentro da própria cabeça pra conhecer a si mesmo e Hannibal fornece bons momentos assim. Mesmo que a série seja insuportável quando os legistas do FBI estão explicando tecnicalidades dos assassinatos, os momentos onde Will e Hannibal estão frente a frente são ótimos.

No final da primeira temporada, sai com a barriga farta do banquete servido. Talvez ser concebida na tv aberta tenha sido, afinal de contas, uma vantagem. Tornou-se assustadoramente bela, com aquele flerte com o pior do ser humano mostrado como uma obra de arte.

Agora, se me dão licença, a segunda refeição, digo, temporada, me aguarda.

Topo ^