O tipo de série que você está cada vez vendo menos

Nova série de David Simon é um exemplo de como uma história complexa pode sim ser contada de forma simples.

Luide
Luide
6 de novembro de 2017

Existem vários jeitos de se contar uma história, e David Simon e George Pelecanos escolheram o caminho mais longo e satisfatório. Quando se ouve “nova série da HBO irá retratar o surgimento da indústria pornográfica” a primeira imagem que se vem à mente é de muita nudez e sexo, já que, bom, estamos falando da HBO. Mas em seus excelentes oito episódios, The Deuce mostra que o olhar de Simon para o todo está tão afiado quanto na época de The Wire, onde falou sobre tráfico de drogas. Dessa vez, auxiliado pelo seu antigo parceiro de roteiro George Pelecanos, nos entrega uma série tão bem escrita e bem resolvida que se não fosse pelo inacreditável Twin Peaks, sairia de 2017 como a melhor obra da televisão. Tudo isso graças a HBO, sua antiga casa a qual sempre foi fiel, que ainda permite que esse tipo de série seja feita.

Mas para David Simon, contar uma história significa contar várias ao mesmo tempo, e por isso, The Deuce caminha no total oposto ao que vemos em relação a televisão pop. Ele não se preocupa em criar twists ou sacadas dignas de GIFs de em redes sociais, aqui ele investe seu tempo em personagens que de uma forma ou de outra, estão presos no mesmo universo e que em algum momento terão seus caminhos cruzados. Portanto, assim como aconteceu em The Wire e Treme, The Deuce abre mão de um “protagonista” e coloca as ruas de Nova York como o elemento fundamental da trama. Nós nos dedicamos a série porque precisamos saber até onde vai cada um desses personagens.

“Deuce”: apelido dado a Rua 42 da Times Square.

O nascimento da indústria pornográfica na década de 70 não aconteceu simplesmente porque alguém teve uma ideia genial de lucrar ainda mais com sexo e a superexposição do corpo feminino. The Deuce traça cada um desses atos (pequenos ou grandes) que levam os EUA a movimenta mais de 15 bilhões de dólares em pornografia anualmente. E como todo negócio bilionário, é uma indústria que deixa marcas e muda vidas (algumas pra melhor, e de muitos pra pior). Esse é o retrato de The Deuce.

Se por um lado temos Candy, personagem de Maggie Gyllenhaal (que consegue uma atuação tão magistral quanto de Elisabeth Moss em The Handmaids Tale), saindo das ruas para viver como produtora e diretora de filmes adultos, do outro temos jovens exploradas e vivendo à margem da sociedade, moralmente destruídas e escravas de outros homens que lucram cada vez que alguém se masturba por elas. E é somente assim que The Deuce pode tratar de temas tão sensíveis e atuais (a misoginia acompanha toda a obra): mostrando todas as partes, ou pelo menos aquelas essenciais.

Para David Simon fazer uma série não é simplesmente diversão ou contar uma história boa para vencer prêmios, existe um tom de denúncia e exposição, mas sem nunca soar como professoral. The Deuce, assim como The Wire o fez em todos seus episódios, muitas vezes transcende o próprio entretenimento. Suas cenas de abertura pouco antes da vinheta deixam uma espécie de pessimismo involuntário, ou simplesmente uma sensação de que o que virá a seguir não trará soluções, já que nesse mundo apresentado, o nosso no caso, as coisas não são tão simples de se resolver, e um plot-twist pra fazer a galera vibrar não muda os fatos.

The Deuce é série de autor, algo cada vez mais raro, e portanto, longe de conquistar a merecida atenção (séries que jogam pro público estão cada vez mais em alta). Mas essa melancolia, esse sentimento de “como as pessoas estão perdendo isso” é parte da obra de David Simon. E que continue assim pra sempre (e que esse sempre dure o quanto for necessário).

Seja doador e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 12/09/2017

  • Luide

As capas de vinis de Black Mirror que foram desenhadas por um brasileiro

  • 04/09/2017

  • Luide

Twin Peaks: a série favorita dos criadores das suas séries favoritas

  • 04/09/2017

  • Luide

Narcos foi quem saiu ganhando com a morte de Pablo Escobar