O que o fim de Sense8 significou para os fãs

E porque seu cancelamento comoveu os fãs

Luide
Luide
6 de junho de 2017

Talvez não seja algo inédito, mas certamente é atípico. A reação dos fãs diante do cancelamento de Sense8 foi uma prova que de uma maneira ou de outra, a série impactou na vida de muita gente. Quem acompanha séries há um tempo considerável, viu de perto várias boas histórias perderem a chance de ter seu fim, ou viverem na expectativa de se haveria uma próxima temporada. The Wire, por exemplo, que é tida como uma das melhores de todos os tempos, viveu a sombra do cancelamento durante toda sua trajetória no ar. The Leftovers voltou depois que o apelo da pouca, mas apaixonada audiência, fez a HBO produzir mais 8 episódios.

Não existem teorias da conspiração em cancelamento de séries. É algo normal e acontece aos monte todo mês. Na extrema maioria das vezes o baixo número de espectadores é o principal motivo, mas como levantei nesse post, outras questões como calendário dos produtores, problemas pessoais e valores são fatores que contribuem.

No meio dessa tempestade encontram-se os fãs. De um lado acontece o deboche por parte daqueles que tentam usar a situação como palanque pessoal, ou incentivar uma guerra ideológica sem fundamento. Do outro, um sentimento legítimo de perda, afinal, uma série pode sim significar muita coisa pra alguém. Se eu não acreditasse nisso, não teria o Amigos do Fórum, e meu interesse pela cultura pop vai além de uma nota no Rotten Tomatoes. Aliás, esse site só existe graças a uma série (Breaking Bad), portanto, esse discursinho “ai é só uma série” nunca colou comigo.

É um produto comercial? Sim, mas também é um produto cultural, sendo assim, carrega valores, ensina muita coisa, indiferente do seu gosto pessoal (aliás, eu odiei Sense8). No Omelete, Rafael Gonzaga listou alguns motivos que tornam Sense8 uma série tão aclamada pela sua diversidade. Muita gente que nunca havia se enxergado na televisão, de repente estava ali, simbolizada através de uma personagem. Portanto, encarar esse sentimento como “lacre” é ignorar todo um contexto social e admitir de vez que filmes, séries, livros, quadrinhos, games etc não servem pra nada. O que seria uma mentira.

Há algum tempo adotei no Amigos do Fórum uma nova forma de conteúdo: abrir o site para leitores opinarem. Aconteceu com (500) Dias com Ela, filmes que a internet te proíbe de gostar e mais recentemente mulheres expondo o lado tóxico da comunidade nerd. Dessa vez fiz uma pergunta simples em meu facebook pessoal:

E essas foram as respostas:

Lorhan Henrique Costa:

Sense8 nunca foi sobre os “poderes”, sobre a conexão mental e nada do tipo, mas sobre pessoas. Acompanhar o desenvolvimento dos personagens, seu descobrimento e crescimento foi sensacional. Uma pena perceber agora que nem todo mundo captou que o que nos une e nos transforma em seres humanos são nossas diferenças.

Hellen Gonçalves:

Sense8 conseguiu transmitir tudo o que quis, nunca me senti tão tocada ou emocionada, te coloca no lugar dos personagens. Discordo com as pessoas q dizem q a série foca em problematização e sexo! Desculpa, assiste de novo!

Wilton Leal:

Me mostrou que eu posso ser mais do que apenas umas tags que colocaram em mim e pela qual eu sou condenado. Que na real eu posso ser quem eu quiser e contar com quem eu quiser pra viver minha vida, pq é minha e só diz respeito a mim. E que na imensidão desse planetão fodido a gente pode encontrar gente maravilhosa pra compartilhar isso.

Felipe Santos:

Olha sinceramente eu gostei muito da série,ela me tocou por falar em empatia,respeito,tabus,como a sociedade se baseia em rótulos e estereótipos,inclusive quando falam que a serie era só suruba eu lembro de uma frase que um dos personagens diz “não devemos ter vergonha do sexo,pois é dele que nós viemos”,me aproximou da arte,da música e me trouxe ensinamentos valiosos. Falar sobre abuso,familia e sobre aceitação foi ótimo,cada personagem trazia uma história que em algum momento iria se encaixar no telespectador.

Em meio a vários comentários, o do Otavio V. me chamou bastante atenção:

Acho que eu tinha um certo preconceito, não de raiva de homossexuais, mas não gostava de jeito nenhum ver 2 pessoas do mesmo sexo se beijando, me deixava desconfortável no local, mas com a série eu via de boas, e hoje pra mim é super normal.

Levi Kaique:

Que todos somos iguais dentro de nossas diferenças, diversidade e pluralidade são formas diferentes de seres iguais reagirem ao mundo.

E a personagem da Jamie Clayton me fez ter curiosidade com relação as diferenças entre orientação sexual e identidade de gênero, mesmo eu já sendo bastante ‘progressista’ por não pertencer a comunidade esses conceitos me eram estranhos e aprendi muito com relação a isso e outras coisas vendo a série.

Leonardo Cruz:

Para mim, eh literalmente a melhor série sobre família da atualidade, cada um do seu jeito, cada um aprendendo, e vivendo de fato o que eh ter uma família, achei foda demais isso.

Daniela Lopes:

O mundo cruel da fome e da AIDS do Jean, do machismo familiar imposto a Sun, o abandono e ódio da família da trans, do casamento imposto da menina da índia. Gente, Sense8 não era somente sobre gays e sim sobre todo o preconceito que sofremos de forma geral. É uma serie intensa, a história em volta do todo era difícil de assimilar, mas foda. Já pararam pra pensar que ser sense era apenas uma maneira de poder ser alguém que não você, por alguns minutos? Um escape do seu mundo cruel. Eu acho que fará falta sim. Tinha muito assunto ali pra ser abordado. E porra, Lito e Hernandes era o retrato do amor. Acho que esse casal consegue mostrar que o amor independe da sexualidade, amor é só amor. Entendo os motivos da Netflix, fico é pistola que o pessoal não deu uma chance pra serie e a viu. Fazer o quê.

Kallel Calazani:

Pra mim, quando se fala só de lacração, homossexualidade e tudo mais quando se fala de sense8 é tudo blá blá blá de quem não entendeu a série. Eles dão uma apelada nas cenas de sexo? Sim. Tem discurso de lacração? Com certeza. Fala de relacionamentos? Sim mas TODA ficção científica boa é assim, fala de pessoas. Mas a premissa do homo sensorium, dos grupos de sensates, da briga de uma instituição do governo contra eles, tudo bem na pegada X-Men, tem até a Lila lá dando uma de Magneto, tudo isso faz da série ser muito boa.

Ela não é ruim porque tem pessoas do mesmo sexo se pegando, galera, século 21, isso já é padrão, se você se incomoda com isso algum problema você tem, procura terapia. Do mesmo jeito que ela não é boa por esse motivo, se você curte a série só porque tem um monte de pegação, tem vários sites que resolvem isso pra você.
A história é boa, ponto. A edição é sensacional e os personagens são carismáticos.

Por fim, o Vinícius Colares, que é colaborador do Amigos do Fórum, me falou sobre como Sense8 foi inovadora e em alguns elementos técnicos também:

Sense8 trabalha a temática da empatia sem distinção de gêneros, etnias, nacionalidades de maneira simples e universal, trazendo um pouco dos clichês das regiões de cada personagem, a trama de Lito empresta muito das novelas mexicanas, Capheus parece viver em um filme de Nollywood, a Hollywood de Nairobi e sua obsessão pelos filmes de artes marciais oitentistas e assim por diante. O objetivo das Sisters Wachowski era claro, levar a ideia de diversidade para fora de seu nicho, e elas já mereceriam todos os créditos por conseguir realizar isso sem perder a mão da casca sci-fi com uma mitologia própria muito bem orquestrada e expandida ao longo das duas temporadas.

Mas isso não foi suficiente para as criadoras de Matrix que provam novamente o quanto são geniais elevando o conceito de montagem cinematográfica ao limite, saltando no espaço em praticamente todas as cenas da série, que, auxiliados por raccords (elementos que garantem a coerência dos cortes entre os planos) e diálogos que por mais diferentes que sejam nas duas ou mais situações envolvidas, sempre se complementam de maneira orgânica, tornando esse elemento da linguagem narrativa o fio condutor do conceito de empatia. Trata-se de um trabalho colossal e inovador de planejamento artístico que poucos teriam a capacidade e coragem de realizar.

É isso.

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