O que aconteceu com a série mais promissora da última década?

Black Mirror deixa de ser uma série provocadora pra se tornar um amontoado de ideias requentadas.

Luide
Luide
3 de Janeiro de 2018

Isso é muito Black Mirror” se tornou um bordão, meme ou simplesmente deboche da parte de alguns. O fato é que essa frase resume bem um sentimento que todos têm (ou ao menos tinham) ao se deparar com algum fato ou situação estranha, onde a lógica parece ter sido subvertida, e inegavelmente aponta para um caminho errado. Black Mirror é isso. Ou foi isso. Uma série incômoda que usava a ficção científica com elegância para falar sobre diversos aspectos da sociedade, de vícios e medos do homem moderno e da civilização como um todo, sempre puxando o debate para questões mais filosóficas e com episódios que literalmente te deixavam em choque.

Mas nada disso aconteceu nesse quarto ano. É como se tudo que Black Mirror foi um dia fosse deixado de lado, e Charlie Brooker, criador e principal roteirista, estivesse cansado de escrever sua própria série. No fundo, parece que o quarto ano de Black Mirror é sobre o próprio Brooker, onde em seis episódios ele conta a história de espectadores que mesmo diante de uma temporada inferior as outras, não percebem isso graças ao extremo vício em streaming.

Porque sinceramente, não é possível que até o mais morno do espectador não perceba a queda brutal de qualidade. Black Mirror praticamente despencou do centésimo andar e caiu de cara no chão.

4 dos 6 episódios dessa temporada apresentam conceitos requentados de episódios anteriores. A preguiça é tamanha que Black Museum é um apanhado de tudo partindo pra um twist final que tenta chocar o espectador apenas pelo choque (algo também requentado de episódios como White Bear). Aliás, Black Museum é a cara do que significa essa temporada de Black Mirror: um amontoado de péssimas ideias tentando vender temas importantes. O próprio White Bear já debateu julgamento, punição e voyeurismo com esmero, mas nada disso, vamos refazer tudo novamente.

Está claro que Charlie Brooker realmente quer aproveitar a verba gorda da Netflix pra fazer uns experimentos de gênero, algo que ele já havia prometido antes da terceira (e primeira sob o comando do serviço de streaming). USS Callister e Metalhead são exemplos desses experimentos que, ok, tem lá suas qualidades. Mas, volto a dizer, são ideias requentadas. Metalhead aliás soa como um deboche da série com ela mesma. Aquele lance dos “males da tecnologia” traduzido de uma forma preguiçosa (“uau um robozinho malvado. Queimem seus computadores”).

Voltando ao simbólico Black Museum, a desculpa esfarrapada pra agradar fã de “Universo Compartilhado” foi uma péssima escolha. Black Mirror sempre deu sinais de que tudo está dentro de um mesmo universo, mas em épocas diferentes, PORÉM, era sempre aquele pequeno easter egg aqui ou ali, não algo gritando na sua cara. Mas a grande vantagem disso é poder reutilizar “tecnologias” apresentadas em episódios anteriores, misturá-las e lançar um novo com cara de primo pobre do espetacular White Christmas (que já havia usada a mesmíssima construção narrativa para fazer um grande twist final).

É uma pena que uma série tão criativa e provocadora caiu na mesmice, quase se tornando uma paródia dela mesma. Charlie Brooker precisa de férias. Urgente. Que a próxima temporada leve o tempo que precisar.

 

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