O nosso “White Bear” de cada dia

Do caso de traição exposto na internet a difícil realidade que Black Mirror nos conta

Luide
Luide
17 de dezembro de 2015

CUIDADO! Esse texto contém spoilers do S02E02 de Black Mirror

Black Mirror me fascina em níveis que não consigo explicar. Já falei sobre ela em texto, em vídeo e mais recentemente em áudio. O que torna Black Mirror diferente de tudo que temos hoje em dia é sutileza com que seu criador Charlie Brooker da tapas em nossa cara. Através de cenários distópicos ou situações extravagantes, Black Mirror nos convida para histórias onde, a primeira vista, o uso excessivo da tecnologia se tornou o mal desse século, quando na verdade, a série quer mesmo é falar sobre os excessos humanos.

São 7 episódios com tantas interpretações, algumas até filosóficas, que fica difícil resumir Black Mirror em palavras. Charlie Brooker vai a fundo na natureza humana, em nossos vícios e medos, e através de certos exageros consegue com maestria expor o mais íntimo de uma sociedade sem parecer cafona.

No meio de tantos episódios inacreditáveis, White Bear (S02E02) é talvez o mais aclamado pelo público. Na história, uma mulher acorda amarrada em uma cadeira com a foto de uma criança. Desnorteada, ela sai em busca de ajuda e respostas para o que está acontecendo, mas encontra pessoas hipnotizadas por uma câmera de celular, filmando cada passo seu, enquanto caçadores tentam tirar sua vida.

A explicação é que ondas de tv dominaram a mente humana e nos fez de escravos dos aparelhos eletrônicos, apenas alguns conseguiram escapar desse mal. Com a ajuda de outra mulher, ela precisa destruir a torre que emite o sinal e libertar a todos. Quando isso está prestes a acontecer BOOM! Black Mirror mostra a que veio. White Bear simplesmente explode cabeças e em suas “cenas pós créditos” entendemos, ou quase, o que Charlie Brooker queria contar.

Agora corta para a realidade.

Dias atrás uma mulher foi filmada dentro de um motel com seu amante. O marido enfurecido destrói o carro e parte pra agressão verbal e física. Um amigo filma todo o ocorrido e enquanto faz comentários, quase uma cobertura jornalística. O vídeo caiu na internet, viralizou em todas as redes possíveis e a situação virou uma piada. A mulher virou vagabunda, o homem virou o corno otário. Todo mundo tem uma piadinha na ponta língua pra esse caso.

É uma situação lamentável e triste para ambos os lados. Não sabemos de nada a respeito da vida dos envolvidos, e a nós aqui de fora, sobrou um relato em vídeo do dia em que a vida desses dois veio abaixo. Um momento que deveria ser íntimo, algo que cabe a eles, uma dor que não deveria ser compartilhada. Mas a sociedade gostou e serviu a cabeça dessas duas pessoas em um delicioso banquete.

Corta pra Black Mirror.

No final de White Bear percebemos que estamos diante de uma encenação onde a mulher desacordada nada mais é que uma prisioneira. O White Bear Justice Park é um parque de diversões para pessoas que desejam ver a justiça sendo executada. Uma vingança encenada.

Ao participar do sequestro e assassinato de uma garotinha, a mulher desacordada foi condenada a sofrer a mesma punição todos os dias de sua vida, e seu sofrimento filmado, consumido, fotografado, compartilhado.

Ela é exposta, torturada, humilhada e queimada em praça pública como uma bruxa. E quando você começa a sentir algum incômodo com a situação, entender que talvez aquilo diante de seus olhos não seja justiça, o guia do parque faz questão de lembrar: ela fez exatamente a mesma coisa com uma garotinha e não sentiu pena. Porque você deveria sentir pena dela? É como se fosse um cálculo: quanto mais ela sofrer, mais a sociedade se sentirá protegida ou aliviada.

A tragédia de White Bear é o nosso voyeurismo diário com a dor alheia. Não compartilhamos coisas boas a respeito dos outros, jamais saberemos dos momentos felizes que o casal exposto na internet viveu. Nós queremos a dor, queremos ver o coração manchado de sangue. Queremos rir da tragédia, filmar, fotografar a vergonha da mulher, a tristeza do marido traído. O circo agora pega fogo e você manda piadas sobre isso para os seus familiares rirem.

E você não se sente mal com isso, afinal, quem mandou ela trair o marido? Quem mandou o marido não dar assistência? Agora é tarde, vamos rir. Vamos crucificar. Manda no meu WhatsApp.

Black Mirror não é ficção, não é um futuro distante.
É o agora. Basta olhar com atenção.
Em nossos parques de justiça estão muitas Fabíolas vivendo um tormento diário. Sorria pra foto!

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