No “Dia do Orgulho Nerd”, mulheres expõem o lado tóxico dessa comunidade

O problema não pode ser tapado com a toalha

Luide
Luide
25 de Maio de 2017

me ignoravam na escola porque eu gostava de Star Wars, hoje ser nerd está na moda, é cool“. Criaram uma ótima narrativa para enganar o nerd/geek de hoje: que ele sofria por gostar de certas coisas, mas hoje, é ele quem da as cartas. Com a chegada da internet e jovens bilionários ganhando filmes do David Fincher, o nerd aprendeu que basta ele decorar o nome das naves de Star Wars que tudo de bom irá acontecer em sua vida. O Mark Zuckerberg ficou rico depois de chutar a namorada “vagabunda”! É assim que funciona o sucesso!

Ganhou data comemorativa, sites passam o dia exaltando a importância de “ser nerd“, camisetas pra todo lado, referências aqui e ali, Marvel fazendo tanto dinheiro com super heróis que não tem mais onde guardar, o Sheldon, Vale do Silício… tudo parecer ir bem no mundo nerd, esse lugar cheio de pessoas que supostamente sofreram por ler gibi, mas hoje, estão de braços abertos a novos membros.

Mas é claro que isso é uma mentira.

Tudo bem, não é o “mundo nerd” que sofre de um grave problema de falta de empatia e está atolado em um mar de lama de preconceito. É esse negócio chamado Terra. Mas hoje, especificamente no Dia da Toalha/Dia do Orgulho Nerd, é hora de voltarmos os olhos para o que acontece dentro dessa comunidade, que inclusive faço parte, escrevendo sobre cultura pop há quase 6 anos. É claro que nunca me peguei pensando no quão tóxico esse ambiente pode ser, até que o nascimento da minha filha colocou as coisas sob uma nova perspectiva.

A Camila, mãe da Alice, é uma gamer de carteirinha. É seu lugar favorito de entretenimento. Eu, como deu pra ver, tenho um site exclusivo pra falar sobre cinema e séries. É natural que a Alice cresça em um casa onde a cultura pop é exaltada e consumida o tempo todo, e portanto, goste das mesmas coisas que seus pais. Agora, será que o lugar onde ela irá falar sobre games, filmes e séries, irá recebê-la de braços abertos? Ou ainda será esse lugar asqueroso onde criminosos ameaçam de estupro uma criança de 10 anos que só queria jogar videogame?

A ascensão do nerd trouxe um vasto mercado a ser explorado. Eventos, lojas online, revistinhas, aplicativos, canais de youtube, sites de notícias: o nerd hoje é um produto a venda e precisa ser vendido como algo valioso. Sendo assim, é comum que os maiores portais e canais que tratam de cultura pop pouco ou nada se preocupam com o ambiente onde trabalham. O nerd precisa ser acariciado, elogiado. Não se pode apontar o dedo e dizer que ele está errado em agir feito um mimado porque a Mary Jane pode ser interpretada por uma atriz negra.

Mulheres são 52,6% do público que joga games no Brasil,

é o que aponta uma pesquisa de 2016, mas ainda assim, não apenas os games, mas quadrinhos, filmes e séries, são visto como algo prioritário ao público masculino. O assédio que muitas mulheres enfrentam no dia-a-dia também acontece na cultura pop, lugar que, em tese, deveria ser o mais acolhedor possível.

Resolvi conversar com algumas leitoras, seguidoras e amigas que gostam e consomem cultura pop a respeito disso tudo. Os depoimentos que recebi estão publicados na íntegra, e peço que você leia e reflita um pouco. Isso aqui é nosso e é pra todo mundo.

Fernanda Rodrigues:

“Eu comecei a me aventurar no universo nerd já tardiamente, depois dos 18 anos por influencia de alguns amigos e me apaixonei completamente por tudo que envolve essa cultura mas o que acontece é que os homens desse universo sempre menosprezam e acham que a mulher não sabe nada sobre isso, sempre que entro no assunto sou questionada umas 30 vezes mais que os homens sobre os detalhes do filmes, livros, etc etc. Fiz meu tcc de pós sobre Star Wars e Marvel e sempre tem um espertão de quer me ensinar sobre os universos como se eu não soubesse nem diferenciar o luke do han solo.

Pra piorar um pouco, em dezembro comecei a gravar ao lado do meu amigo, uma programa de séries no Canal Nerdista e desde o primeiro episódio, todos os comentários masculinos ou são elogiando o conteúdo pro Gabriel, meu amigo, ou são me elogiando por ser bonita e dando cantadas. Alguns criticam também dizendo que eu pareço insegura nos vídeos. Mas ninguém faz isso com o meu amigo, pq ele é homem né?”

Alessandra Ferreira:

“Tento esconder que sou mulher. Escrevo como mano, tenho nome que não parece de mulher, etc.
Mas quando percebem que sou mulher todas as ofensas são relacionadas a estupro, e relacionadas ao fato de seu ser mulher. Tipo, mostra os peitos, senão tá jogando aqui pra que? Ou se a gente perder vamos te achar e te estuprar.
Coisas do tipo, sem nem eu dizer nada. Sem nenhum tipo de discussão. Só porque sou mulher. É bizarro!
Eu queria muito fazer um canal de vídeo sobre games mas tenho medo do público masculino.”

Daniela Lopes:

“O que me marca é que eu gosto de jogos de tiro e de ação. Minha serie favorita de jogos é God of War. Pensa quantas vezes vieram me perguntar se eu entendia a historia grega hahahahha eu falava sim, mas eu jogo porque gosto não por isso hahahahha. Sempre que uma mulher invade o “espaço” masculino, ele tenta te diminuir. Quer fazer perguntas difíceis, como se quisesse provar pro ego q somos inferiores e sabemos menos é horrível.

Levar ban por ter nick de mulher é super comum. Os caras não aceitam q podemos jogar bem. Nem deixam VC tentar, você entra e eles te tiram. É constrangedor. Tanto q eu só jogo com amigos. Pra evitar essas coisas. Parece q não mas chateia muito. Quando saiu o Mortal Kombat no P3eu fiquei super feliz porque era meu jogo favorito na adolescência. Mas olha… Jogar com adultos foi uma bosta. Quando era criança ganhava dos meus primos e eles davam risada, tudo era brincadeira. Adulta… Se eu escolhesse tipo o Sub-zero os meninos vinham ‘nossa mas joga com esse? Ele é muito ruim, não sei como você ganhava dos seus primos. Vai ver eles eram péssimos’ como se eu não tivesse capacidade pra ganhar de alguém.

Eu cresci meio atípica. Eu jogava bola na rua, andava de carrinho de rolemã. E sempre foi normal. Ninguém estranhava. Mas qdo cresci tudo mudou. E os homens me achavam ‘mulher macho’ só por causa disso”.

Fernanda Barros:

Ultima Comic Con: estava eu lá sorridente tentando chegar perto de uma prateleira de um stand que estava vendendo umas HQ’s, dois caras me empurraram e falaram: ‘la vem as att whore querer comprar quadrinhos pra chamar atenção de macho’ e eles simplesmente não queriam deixar eu chegar perto da prateleira.

Na mesma Comic Con, logo na fila, estava com uns amigos conversando sobre Diablo, uns cara na fila atrás de mim começaram a perguntar se eu tinha pago muito caro no meu óculos sem grau (?) pra pagar de nerd. Não dei atenção, um virou pro outro e disse: ‘o máximo que já deve ter chego perto de um videogame é pra tirar foto com controle e postar no Instagram'”.

Sarah Campos:

“Eu comecei a me interessar por conteúdo nerd na adolescência, onde participei de vários eventos de anime e comecei a conhecer meus amigos através de fóruns e grupos. Nesse cenário já via rolar muito machismo por conta de assédio. Os garotos mal podiam ver uma garota sozinha que já faziam aquela pressão para que ela os notasse. E era muito ridículo pois só queriam uma garota por perto por ser bonita, se fosse para conversar sobre qualquer assunto a opinião era ofuscada.

Achei que quando virasse adulta a coisa mudaria. Engano meu, ela ficou pior. Por ter um site de entretenimento, vem a meu conhecimento muitas novidades legais sobre quadrinhos, filmes, series, brinquedos e eu acompanho muita coisa por ser fã mesmo. Sou apaixonada por Marvel (grande parte por conta do MCU) e meu maior passatempo é assistir filmes…incontáveis filmes. Quando me reúno com outros profissionais a conversa até anda. Mas ainda sinto a minha voz ser ofuscado. “Porque no quadrinho na saga tal aconteça tal coisa. Se você conhecesse saberia a diferença do filme.” E você tenta argumentar e dar sua visão, e nada.

Aí se de fato você leu a tal saga que o colega falou, a resposta é mais absurda. “Há vc leu tal saga? Mas você leu agora por causa do filme, então não tem opinião sincera, foi influência”. E eu fiquei sem reação. Parece que não adianta o quanto nos garotas nos informamos de algo, gostamos de algo e consumimos algo. Nunca será embasado o suficiente quanto “os caras”. Muitos acreditam que machismo é só agredir fisicamente é verbalmente. Eu acredito que se você não da espaço para alguém se moldar e se encontrar em algo também é um preconceito, e vindo dos garotos sempre acharem que sabem mais nome fez me sentir burra em muitas situações. Porque não era tão “engajada para falar algo”.

Porque “as garotas só querem ver os caras bombados nos filmes”. Porque “agora tá na moda usar blusa com emblema de super herói, quero ver se sabe citar 50 heróis do universo 616″. Então assim, o machismo existe. E ele nos impede de prosseguir e até mesmo nos faz sentir mal quando conseguimos avançar, mesmo que pouco.”

Natália Freitas

“Eu fazia parte de um grupo sobre a Marvel no WhatsApp com uma galera, 90% homens. Sempre tinha uma coisinha ou outra que eu via que era machismo velado sabe? Certos comentários me incomodavam mas eu tentava ignorar. Aí um dos meninos descobriu que eu tenho um fansite pra um dos atores da Marvel, que interpreta justo meu herói favorito, aí desandou tudo. Um dia eles estavam discutindo sobre a série do Gavião Arqueiro do Matt Fraction e eu fui conversar também, pq e a série que eu mais gostei. Fui falar numa boa, lembro que foi algo do tipo “gostei mais da pequenos acertos na verdade” e nossa hahaha começou o chorume.

Começaram a falar que eu não tinha moral pra falar de HQ, que eu devia ficar so nos filmes mesmo e olhe lá.

“Só gosta porque acha o ator bonito”
“Mulher só gosta de herói se for assim mesmo”
“Aposto que não sabe metade da história do cara”

Aí eu fui me defender, disse que gosto do personagem e que leio as HQ’s aí um cara falou “alguém tira logo essa vagabunda que eu tô sem paciência”

Aí eu fui expulsa ¯\_(ツ)_/¯”

Letícia Vieira

“Nunca tive problema ao falar sobre filmes e séries. Meu problema maior era com os “gamers”. Eu participava de um grupo grande de The Witcher 3 no Facebook e eram frequentes as postagens de zoeira com mulheres e feministas. Tinha uma lá que comparava o gráfico do the witcher com o do Dragon age inquisition, falando que os gráficos do jogo eram tão ruins que só podiam ser associados às feministas. Esse tipo de coisa tosca. Um dia postaram uma crítica de the witcher 3, no que o jogo peca em relação a representatividade feminina e a moça, pra variar, foi execrada.

Falaram que isso era muito mimimi, vitimismo, que o feminismo queria anular os homens e etc. Daí eu comentei que o feminismo não pregava aquilo que eles falavam, mas sim a igualdade entre homens e mulheres. Isso fez com que um monte de caras viessem me xingar, me chamando de histérica, mimizenta, que certamente eu seria uma daquelas que não se depilava, nem tomava banho e que eu não sabia o que era o real significado do feminismo. Eu não lembro certinho tudo que disseram pra mim, pq faz tempo que isso aconteceu e eu acabei saindo do grupo.

Basicamente, a postura desses caras com meninas que gostam de jogos é essa. Ou eles ficam te chamando no inbox pra dar em cima de você, oq já aconteceu comigo (o cara veio conversar comigo e me perguntava coisas constrangedoras, queria até saber onde eu morava e com quem). Parece que a gente não pode se expor na internet, dar nossa opinião, pq acham que vc é passível de tudo. Já aconteceu tbm de gringos me assediarem na internet. Só de vc falar que é brasileira, eles mudam totalmente sua postura contigo. Isso aconteceu quando eu quis abrir um perfil no italki pra treinar inglês. Nunca mais faço isso rsrsrs.”

Nannarhara Bessa

“O que realmente me entristece no meio nerd é o fato de as mulheres serem vistas da maneira bem diferente dos homens. Poucas foram as vezes em que eu comentei sobre minha preferência por coisas relacionadas à cultura pop que não tive que responder um questionário, como se eu fosse ganhar uma “carteirinha de nerd” se acertasse todas as questões. Inicialmente isso me chateava, até eu descobrir que pode ser ainda pior.

Faço cosplay há pouco mais de 2 anos, e de cara já quis começar como Stormtrooper, e usando uma armadura feminina, encomendei com todas as adaptações, já que na época não existia ainda a Capitã Phasma, quis poder mostrar que eu estava com cosplay de “menino” sim, mas em momento algum estava deixando de ser menina, pelo contrário, queria poder mostrar que nós mulheres podemos ser quem a gente bem entender.

Com isso, ganhei uma visibilidade bem maior, e as chateações aumentaram junto. Já levei várias cantadas em eventos, gente que ao tirar foto me abraça pela cintura ou dá um jeito de ter um contato maior, ou pedem pra eu tirar o capacete pois dizem que fico mais bonita sem (eu não estou alí pra brincar de modelo, e sim para interpretar um personagem), e pior do que isso: ocorreu mais de uma vez de eu estar acompanhada de algum namorado ou ficante, e pessoas nos abordarem para perguntar PRA ELE se podiam tirar foto comigo. Não deixei barato, e em uma dessas vezes eu respondi, que quem tinha que permitir foto ou não era eu.

Uma das poucas situações que pensei que passaria um aperto, e me surpreendi, foi quando estive na CCXP com um cosplay de um mashup da Leia escrava com Ariel, a pequena sereia, e na ocasião estava com o meu filho. Obviamente acabou chamando muito a atenção, já que no caso ele estava de Han Solo, e eu com bem pouca roupa. Porém, por estar com uma criança, as pessoas foram bem respeitosas. Prefiro nem imaginar como seria se ele não estivesse lá. Certamente alguém dirá: se não quer ser cantada não se vista assim. Ata. Me vestirei sim, me recuso a ficar me oprimindo como sempre fiz por receio de atitudes masculinas.

Sempre recebo os mesmos tipos de conversa em redes sociais, devido ao clichê da ruiva, nerd, tatuada que permeia a mente masculina, de cara que já inicia a conversa dizendo o quanto daríamos certo por gostarmos das mesmas coisas, por ele ser fã de Star Wars, e ainda faz questão de me mostrar toda a sua coleção, sem sequer ter a preocupação de eu estar interessada ou não. E já aconteceu também de ao ouvirem um não, eles ficarem ofendidos me chamando de poser, modinha e coisas do tipo.

Não tenho o costume de jogar, pois sou um tanto impaciente para desbravar algum jogo novo, mas não foi uma vez só que ganhei partidas online e fui chamada de diversos palavrões apenas por esse motivo. Falei apenas sobre mim, mas sei que não estou sozinha nessa, e todas as amigas que conheci no meio nerd já passaram por situações chatas, e foram de alguma maneira humilhadas. Se as acham bonitas e elas estão no meio, são posers. Se para o padrão masculino elas não são bonitas, também são ofendidas.

Espero realmente que no meio nerd não apenas as heroínas de filmes ou de HQ´s sejam respeitadas, mas sim todas as mulheres, independente de gostarem das mesmas coisas que os homens desde criança, ou terem começado a gostar depois de adulta. Que no Dia do Orgulho Nerd, nós tenhamos realmente orgulho em sermos e estarmos inseridas no mundo nerd, sem precisarmos provar nada para ninguém.”

Feliz Dia do Orgulho Nerd pra você também.

Crédito da foto da capa: Henrique Oliveira

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