Não faça maratona de séries

Se eu pudesse ter dar apenas um conselho seria: não faça maratona de série.

Luide
Luide
30 de outubro de 2017

Em uma mesa de bar converso com dois amigos sobre alguma série que não me recordo agora, mas enfim, em determinado momento um deles fala de LOST. Aproveito o gatilho e pergunto como foi a experiência de ambos assistindo a série. Pronto, aquilo praticamente ativou uma memória afetiva que ainda pulsa forte na mente, e o papo pelos próximos minutos foi apenas de exaltação dos momentos que eles viveram. De madrugar para conseguir uma legenda, a se debruçar em fóruns de discussões tentando desvendar cada diálogo. Mas não se limitava ao online: encontros de fãs eram promovidos e a discussão ganhava o “mundo real”.

Podemos debater o final da série até o infinito, mas essa sensação ninguém tira do fã de LOST. Esses relatos bastante pessoais mexem comigo de alguma forma. Como uma série quebra a barreira da televisão e coloca o espectador em uma verdadeira peregrinação semanal ao longo de vários anos? Isso só é possível graças ao poder de contar uma boa história. No caso de LOST e de várias outras séries, esperar a semana toda pelo próximo episódio significa ter uma semana para refletir e absorver o que o anterior tentou nos contar.

Mas esse tipo de experiência é parcialmente (em alguns casos completamente) anulada quando se assiste tudo de uma vez. O chamado binge-watch (ou maratona) se tornou a nova obsessão do fã de série, mas esse método não chegou com a Netflix, apenas se popularizou graças ao serviço de streaming. Só que a revolução dos meios de consumo foi tão grande, que ele se estendeu a várias outras série que ainda são distribuídas de forma semanal. Há, inclusive, quem prefira esperar que a temporada termine para dar play no primeiro episódio.

Mas o que se perde assistindo tudo de uma vez? A forma como a própria obra é absorvida.

Game Of Thrones movimenta sua audiência ao longo de semanas e tudo que envolve a série se torna uma atração. Saber o nome do episódio, quem dirige e escreve. No final de temporada, você facilmente sabe apontar seu episódio favorito e aquele que menos gostou. Agora, me diz: qual seu episódio favorito de House of Cards? Sabe quem escreveu e dirigiu? Dificilmente se presta atenção nesses detalhes quando o episódio em si não é observado como único, mas sim toda a temporada.

A Netflix não demorou para encontrar um padrão em sua séries. Como falo no texto sobre Mindhunter, a série foge de algumas convenções estabelecidas pelos produtores cujas obras são distribuídas pela Netflix, mas algumas fica impossível de fugir. Por exemplo, o Episódio 6, que tem apenas 34 minutos de duração e é a típica barriga de meio de temporada: ele encerra os acontecimentos da primeira metade, e estabelece os próximos conflitos. O problema desse tipo de escolha é justamente um episódio que poderia ser dissolvido entre seu antecessor e sucessor. Não existe uma razão sólida para existir além do preenchimento de episódios, e favorecer o formatinho de 10 ou 13 por temporada. Algo que sinceramente, já passou da hora de ser revisto.

Se não tem o que contar, não conte.

Ao mesmo tempo, Mindhunter oferece um excelente terreno para debate. Se a mente de um serial killer é algo complexo como a série sugere, o mínimo que o espectador poderia fazer era de refletir um pouco sobre o que assistiu, dissecar aquilo que foi exposto. Assistindo todos os 10 episódio em um espaço mínimo, sua mente praticamente não absorve ou processa nenhum tipo de informação. Tudo se torna mecânico. E muito dessa ansiedade em ver toda a temporada em tempo recorde, é fruto do medo do spoiler ou de ficar de fora das discussões. E bom, nas redes sociais ter opinião sobre tudo é uma forma de se sentir parte de um grupo.

No fim das contas quem perde é o próprio espectador.

 

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