Mãe! pode não ser um filme de terror, mas é assustador

Mãe! é o que acontece quando se fica preso em um pesadelo.

Luide
Luide
25 de setembro de 2017

Dia desses comentei brevemente aqui no Amigos do Fórum a respeito da expressão “pós terror”, termo que o crítico Steve Rose do jornal inglês The Guardian utilizou para falar dessa nova safra de cinema de terror, onde o susto é quase inexistente e o medo é instalado através de paranoias sociais ou um clima desconfortável. It’s Follow e Get Out são exemplos recentes. Se o “pós terror” é ou não um movimento cinematográfico pouco importa, mas é satisfatório notar a boa aceitação do público para com esses filmes. E se o medo é uma resposta do nosso corpo a um momento de perigo, ou a ansiedade causada por um suposto perigo, Mãe!, o novo trabalho de Darren Aronofskyd, não deixa de ser um “filme de terror”.

Medo, aquele que paralisa, nos faz sentir o estômago na boca, e principalmente, não nos abandona por alguns dias. Você pode até sentir um susto aqui ou ali, mas medo genuíno é realmente difícil de se sentir hoje em dia assistindo a filmes e séries. Monstros e fantasmas vem se tornando mais uma espécie de fetiche do que realmente uma crença. Certamente na sua infância você conheceu alguém que acreditava, por exemplo, em lobisomem (meu avô jurava que conheceu um). Já hoje, se um copo levitar na sua cozinha, é provável que você de gostosas risadas.

Essa falta do que temer na fantasia é reflexo do temor abundante da nossa realidade. Vivemos em um país com mais de 50 mil assassinatos por ano, onde uma mulher é violentada a cada 11 minutos, e a população de periferia vive oprimida e marginalizada. Quanto menos privilégios sociais você tem, mais coisas você tem a temer. Com tudo isso acontecendo o tempo todo na vida de muita gente, como se impressionar com um palhaço assassino?

De todo modo, quando uma ideia é bem executada, nossa mente pode, por alguns instantes, se desconectar da realidade e comprar aquele universo. Em Mãe! isso aconteceu comigo. Pela primeira vez desde criança senti vontade de fechar os olhos vendo uma cena de filme. É como se acontecesse com o espectador o inverso do que aconteceu com a personagem de Jennifer Lawrence: quando ela acorda somos nós quem adormecemos. A sensação de estar diante de um pesadelo de quase duas horas é sufocante.

O pesadelo é assustador por natureza. Quando se está dormindo, não temos consciência disso, portanto, o que acontece em um pesadelo é real. Em alguns casos extremos, sentimos até mesmo dor. Mas porque Mãe! me lembrou um pesadelo? O exemplo é fácil: sabe quando você sonha que não consegue fugir de algum lugar? Ou não consegue dizer alguma coisa? Ou está tentando correr e suas pernas não se mexem? O sentimento de não ser dono de sua própria vontade?

Mãe! me proporcionou essa agonia.

A “mãe” é o tempo todo lançada em situações que parecem fáceis de resolver, afinal, qual a dificuldade de expulsar alguém de sua casa? Mas ali as pessoas continuam voltando, a casa segue enchendo, nada mais é controlado por alguma lógica. E tudo fica insuportável. Ela está presa em um pesadelo, já que não pode mais agir perante a situação, apenas reagir. E reage… e reage… e nada muda. É um pesadelo que não acaba e você muito menos acorda. Quer dizer, você está acordado, mas o filme consegue te convencer do contrário.

2017 é mais um bom ano para o cinema de terror, e mesmo que Mãe! não seja classificado como tal, é sem dúvidas o filme que mais me causou medo e pânico. Que experiência desgraçada. De boa…

Seja doador e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 05/12/2017

  • Luide

A única reação sincera ao trailer de Os Vingadores: Guerra Infinita

  • 30/11/2017

  • Luide

Zack Snyder não queria deixar direção de Liga da Justiça

  • 29/11/2017

  • Luide

A chegada de Thanos e o fim dos Vingadores como conhecemos