Lindo, provocador e histórico. Estamos falando de Blade Runner 2049

Denis Villeneuve não mentiu quando disse que faria seu filme: Blade Runner 2049 é uma obra única, que usa com inteligência e respeito os elementos do original de 1982.

Luide
Luide
4 de outubro de 2017

SEM SPOILER: esse é o primeiro de vários textos sobre Blade Runner 2049 no Amigos do Fórum.
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A estimativa é que até 2050, um ano depois  dos acontecimentos fictícios do novo Blade Runner, a população terrestre chegue a mais de 8 bilhões. Desses, 66% estarão apinhados nas grandes cidades, cuja a maioria são como as brasileiras: mal planejadas e segregando parte de seus habitantes mais pobres. Desmatando, poluindo e subindo torres e mais torres. Apesar da crise, não é difícil se deparar com prédios residenciais que pipocam em bairros periféricos, no mesmo ritmo, leis que protegem parte da flora são fragilidades em prol de um suposto progresso. A pergunta é: pra quem?

Quando, em 1982 Ridley Scott deu ao mundo uma das ficções científicas mais influentes de todos os tempos, pouco se falava sobre impacto ambiental ou mudanças climáticas. Quer dizer, esse assunto é antigo, mas dificilmente você o veria sendo debatido além de meios acadêmicos. 30 anos depois, a Los Angeles de Blade Runner não parece mais tão distante de nós, e o medo da luz do Sol se tornar uma lembrança da minha geração é evidente. Ou seja, a tarefa de Denis Villeneuve é um tanto ingrata.

Despertar o mesmo sentimento de espanto seria difícil, e ele tinha duas escolhas: a primeira é a mais fácil e adotada em larga escala em continuações, reboots e remakes. Apelar para o nostalgismo barato. O outro seria fazer um filme próprio, com elementos do original, mas remando para algo novo.

Primeiramente, não é possível ficar à altura do original. É do Ridley Scott. É uma obra-prima […] O que mais me aterroriza nesse momento é que estou pegando Blade Runner e transformando em algo meu. Isso é assustador” disse Villeneuve em maio. Ao subir dos créditos ficou claro pra mim: estava diante de uma obra única, mais uma ficção científica digna de entrar para a história do gênero, e um filme que honra o nome que carrega.

Mas a verdade é que apesar de ser tão bom, o mundo de 2049 não assusta, afinal, ele é um 2017 um pouco mais escuro.

A vida se tornou uma espécie de commodity e os Replicantes são um produto dessa matéria prima. O debate silencioso e contemplativo a respeito do tema (o que é estar vivo?) é o fio condutor de Blade Runner, e em 2049, o roteirista Hampton Fancher segue explorando essas nuances, mas agora adicionando ainda mais peças nesse quebra cabeça que tira o sono de filósofos desde a Grécia antiga. Por outro lado, Blade Runner é também uma experiência audiovisual, e se no de 1982 tínhamos Vangelis conduzindo uma trilha melancólica, e Jordan Cronenweth impondo uma fotografia suja e sufocante, Blade Runner 2049 mantém o alto nível, com destaque para Roger Denkis (velho companheiro de Villeneuve) que nos entrega o filme mais belo do ano. São cores vivas e brilhantes que contrastam com uma Los Angeles escura e opressora.

Na linha temporal de Blade Runner, o salto de 2019 para 2049 mostra um avanço tecnológico tão grande quanto a deterioração daquilo que já dava sinais de fim. Mas uma mudança nítida é o comportamento do grande público que vai aos cinemas nesses 30 anos, aqui na nossa realidade. Se em 1982 Ridley Scott amargou um fracasso (que viria se tornar um clássico cult com o passar dos anos), Denis Villeneuve corre os mesmos riscos de rejeição por parte da audiência. Com um custo alto (se especula $200 milhões), Blade Runner 2049 vai contra todo tipo de blockbuster que faz sucesso hoje em dia. Ele tem seu tempo, sem pressa para contar a história, e avança em um ritmo próprio que permite ao espectador se envolver não apenas com os personagens, mas com aquele universo. Ou seja: tem a fórmula do fracasso.

1982, 2019, 2049… 2017.

2017 foi uma bomba e tanto nas bilheterias americanas. Hollywood viu franquias milionárias despencarem em arrecadação, histórias mal contadas mal se pagarem, e muitos “sucessos” não seriam os mesmos sem o público chinês. Se estamos diante de uma mudança de comportamento -onde o gosto do público cada vez mais se alinha com o gosto da crítica- Blade Runner 2049 pode chutar pra longe o azar do primeiro filme e se garantir e ter suas contas pagas. Seria uma prova incontestável que o público ainda gosta de boas tramas sendo contadas.

Mas é pouco para esse filme. Aliás, uma bilheteria gorda ainda é pouco. A história é suficiente. A ficção científica viu nascer novos clássicos nos últimos anos, de Estrada da Fúria a Ex-Machina, estamos bem servidos de provações sobre nós mesmos, enquanto indivíduos e sociedade.

Blade Runner 2049 chega pra somar. O choque causado pelas grandes metrópoles ou pessoas escravizadas não é mais o mesmo, e se for, é fruto de fingimento (ou vai dizer que você não se pergunta como esse maravilhoso celular foi fabricado?). Mas o fato é que Denis Villeneuve consegue nos surpreender por outros meios, e crava seu nome de vez na história do cinema do gênero. A Chegada, Blade Runner 2049 e o próximo alvo (o maior de todos): Duna. Não tem como não esperar pelo próximo filme desse cara sem uma esperança boa.

Villeneuve, obrigado.

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