Jogo Perigoso: a violência imposta através do silêncio

Adaptação da obra de  Stephen King para a Netflix fala sobre abuso, relações e a violência imposta através do silêncio.

Luide
Luide
10 de outubro de 2017

Um casal prestes a terminar um casamento de anos, decide partir pra uma última tentativa de salvar essa união, que consiste em realizar fantasias sexuais. Porém a execução desse fetiche termina da pior maneira possível, e assim, Jogo Perigoso (Gerald’s Game, Netflix, 2017) começa. A premissa é bastante simples, e de cara, o espectador que não conhece a obra de Stephen King pode imaginar diversas situações. Desde uma lavagem de roupa suja, até um romance que volta com força total após um acontecimento traumático.

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Mas em se tratando de Stephen King e da direção de Mike Flanagan, Jogo Perigoso vai além do simples para debater relações abusivas, violência infantil, e principalmente, o silêncio que a mulher é submetida graças a sua suposta fragilidade diante do masculino.

33% desses abusos são cometidos por familiares

Jessie e Gerald vivem uma realidade comum a muitos casais: o fim de um relacionamento. Mas já em seus primeiros minutos, Jogo Perigoso mostra que ao mesmo tempo em que eles tentam se reconectar, a distância sempre foi uma regra. A falta de diálogo, o pouco interesse em conhecer melhor seu parceiro, estar disposto a ouvir mais do que falar. Trabalhar a empatia por aqueles que juramos amar pode parecer algo estranho. Afinal, se a pessoa resolveu viver ao meu lado, obviamente não existem problemas nessa relação. Certo? Errado.

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A primeira camada de Jogo Perigoso é fácil de desvendar, mas ao avançar da trama (que ganha contornos de suspense graças a Mike Flanagan, diretor de Ouija e O Sono da Morte) percebemos que Jessie esconde algo. Ou melhor, foi manipulada a esconder. Uma vida de silêncio que reflete diretamente na forma como ela se enxerga nesse casamento. Ainda criança foi abusada pelo pai, que não satisfeito em lhe roubar a infância e pré-adolescência, ainda praticou um verdadeiro terrorismo psicológico. É um ato de violência invisível, sem marcas ou lesões. Onde a vítima, ainda em fase de desenvolvimento e entendimento do mundo, não sabe como reagir.

52% delas afirmam não ter feito nada após os atos

Violada e traumatizada, Jessie foi ensinada por aquele que lhe deveria proteger, a ser submissa e sempre se enxergar como a culpada. Assim, quando adulta, resolve se entregar a um homem, mas a sombra do pai abusador a persegue, assim como seu medo, e agora com Gerald, ela segue se enxergando como alguém menor e que talvez seja merecedora daquele sofrimento. Jogo Perigoso expõe alguns vícios do marido que nunca enxergou sua mulher como uma pessoa poderosa, e a tratou como um simples objetivo sexual (a forma como ele reduz o relacionamento a puramente carnal é a prova disso).

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Claustrofóbico e tenso, Jogo Perigoso infelizmente faz algumas péssimas escolhas ao se tornar expositivo em seus minutos finais (a relação algemas, anel e silêncio já estava bastante óbvia), mas cria uma mensagem de redenção poderosa: é preciso denunciar e encarar de frente esse problema infelizmente tão comum. Chega de ter medo, é preciso caminhar rumo ao Sol.

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