Hang the Dj: quando Black Mirror resolveu falar sobre relacionamentos

O amor na era das estatísticas.

Luide
Luide
11 de Janeiro de 2018

Os millennials estão se casando menos. Eles vivem mais tempo na casa dos pais e são os mais inativos sexualmente. Mas afinal de contas, os “jovens” simplesmente não se importam com relacionamentos ou encontraram coisas mais interessantes pra fazer? Bom, isso é problema deles, a “próxima geração” está se moldando a sua maneira e é assim que a banda toca. Tudo mundo adora olhar para os mais novos e apontar o dedo dizendo a terrível frase “no meu tempo era melhor“. Enquanto isso, uma geração de adultos solitários e que glamorizaram a tristeza avança no tempo, prestes a se tornar uma geração de idosos solitários que glamorizaram a tristeza. Esses adultos, a minha, a sua e a nossa “geração”, também não sabe mais se relacionar.

Ou encaram relações como um perfil do instagram.

Quando minha filha nasceu, muitos homens vieram me perguntar sobre o quão trabalhoso era ter filho. Ninguém queria saber das coisas boas, mas sim se as “ruins” eram tão ruins quanto dizem. Esse medo de se comprometer com algo além de si mesmo se reflete não apenas na escolha de ter ou não filhos, mas em relações. Você provavelmente tem um amigo ou amiga que não se relaciona por medo do que pode acontecer quando um simples sexo se transforma em algo sério de verdade. O medo de um “coração partido” ou de simplesmente perder certas liberdades. Abrir mão de vícios e manias para outra pessoa? Inviável.

Olhar para os relacionamentos de hoje e a partir disso construir uma história não é uma tarefa pra qualquer roteirista. O simples é sempre difícil. Por isso, ver que Charlie Brooker resolveu entrar nesse tema foi uma grande surpresa, e Hang the Dj se sai como o episódio mais bem construído dessa desastrosa quarta temporada, entregando um final que, assim como em San Junipero, engana a audiência, os levando a pensar que se trata de um “final feliz”. Se para ter certeza que encontrei a pessoa ideal é preciso uma tecnologia que calcule isso, é porque as coisas não estão nada bem.

Hang the Dj discute o amor como número e obrigação. No interior de onde vim, conheço inúmeros casais (todos idosos) que se casaram por arranjo. Aquela velha história onde duas famílias resolvem unir os filhos em casamento. Alguns, anos mais tarde, até criavam laços afetivos fortíssimos (filhos, as conquistas materiais, o companheirismo) que impedia o fim desse relacionamento, mas em comum, todos tinham forças externas trabalhando para que eles ficassem juntos.

Hang the Dj basicamente atualiza esse amor processado, mas ao invés de seus pais decidirem quem é a pessoal ideal, uma inteligência artificial fica responsável por fazer todos os cálculos e trabalhar todas as possibilidades. E puff! O amor aparece como resultado de uma equação.

Apesar dos elementos sci-fi reciclados (dizer isso já virou entendiante, já que essa temporada se recicla o tempo todo), Hang the Dj levanta questões interessantes como o desapego e a liberdade, mas não deixa de apontar o tédio do sexo pelo sexo. Dentro disso, vale uma menção mais do que honrosa ao episódio First Date de Master Of None, que retrata de forma tão real os relacionamentos da era dos aplicativos que chega a ser incômodo. Desculpe Charlie Brooker, mas Aziz Ansari se mostrou melhor roteirista. Mals.

Mesmo sendo o melhor episódio dessa temporada, Hang the Dj ainda está bem abaixo da média de Black Mirror, mas foi interessante ver essa aventura da série em lidar com relacionamentos. A sua maneira, mas lidou.

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