Gostei de um filme que ninguém gosta. E agora?

Pois é... eu gostei do Episódio I

Luide
Luide
9 de janeiro de 2017

Um dos grandes problemas desse universo da cultura pop é a maneira como muitos tratam a arte como matemática (o certou ou errado), não como algo a ser sentido individualmente. Ou seja, é aquela máxima de dizer que algo é ruim e ninguém mais poderá gostar (o inverso também vale). Isso cria pequenas regras, fórmulas, e o deslumbramento pessoal acaba se perdendo. Você acaba se sentindo mal por gostar de algo que “todo mundo” detesta. Mas afinal de contas, qual o problema?

É óbvio que certas obras são incontestáveis dada sua importância histórica ou as pequenas/grandes revoluções que ela causa no meio que existe. Algo como Sopranos foi para a televisão, ou Star Wars é para o cinema blockbuster e basicamente tudo que nós consumimos hoje em dia. Porém, mesmo elas, estão longe de serem blindadas de críticas, assim como um Transformers também tem todo o direito de ser o filme da vida de alguém.

Nós nos esquecemos das experiências e criamos um imaginário comum, e um dos filmes que mais sofrem com isso é Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma. A última vez que assiste ao início da Nova Trilogia foi na época em que o SBT ainda exibia, dublado, em suas sessões especiais nas noites de sexta feira. No hype de Rogue One, resolvi tirar um tempo e rever os três filmes, e pra isso, procurei me despir o máximo possível de expectativas, preconceitos e senso comum. No fim das contas, acabei gostando de um filme que “ninguém” gosta.

Pra começar é preciso dizer que o Episódio I está longe de ser um excelente filme, mas dado a origem da própria saga de Star Wars (filmes B de sci-fi), esperar por uma obra prima estava longe dos meus desejos. Porém, mesmo com alguns problemas bastante evidentes, acredito que George Lucas fez o que considero importante: algo totalmente novo dentro do seu próprio universo.

Seria cômodo partir pra uma nova trilogia que resgatasse todo o espírito da Clássica, mas aqui é notável como ele ruma para outros caminhos. Caminhos esses que não resultaram na caminhada confortável que os fãs queriam. Eles foram desafiados, novos conceitos sobre a saga de suas vidas foram apresentados. Lucas que desde sempre foi um cara a frente no que diz respeito ao uso da tecnologia, e estava mais deslumbrado do que nunca com o que tinha em mãos.

O resultado é um filme bastante datado, pois a era do digital estava alvorecendo, e basta olhar para a maioria dos filmes da época e ver como praticamente todos se tornaram velhos na questão dos efeitos. Mesmo assim o Episódio I ainda tem bastante coisa prática (algo que J.J. Abrams iria valorizar no Episódio VII) mas que acabam ficando escondidas dada a afetação de George Lucas em enfiar o máximo possível de CGI.

Mas sua coragem para se contar história (muitos acreditam que coragem necessariamente precisa resultar em algo bom) levou Lucas a misturar uma trama política que iria se desenvolver ao longo de três filmes, como momentos de puro constrangimento e escape cômico. Ele podia ter partido pra uma trama menos confusa e enxuta? Sim, seria o mais fácil, mas por que a gente precisa sempre comer o mesmo prato de comida? Experimentar não significa gostar, e esse choque de diferenças é bom para expandir nossa própria percepção do que é “bom” ou “ruim”.

E mesmo cercado de problemas, o Episódio I ainda é bastante imaginativo e, ao menos pra mim, um “não fã hardcore de Star Wars“, foi interessante contemplar alguns momentos como o jovem Obi-Wan Kenobi, o ótimo Qui-Gon Jinn, o vilão Darth Maul (que consegue valorizar o pouco destaque, mesmo sendo importante para o desenrolar da história), o Conselho Jedi, como a República funcionava e até mesmo a origem do pequeno Anakin.

Não da pra simplesmente descartar tudo no lixo.

Mesmo sabendo que Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma tem muitos problemas e escolhas infelizes, me dei o direito de gostar. E será assim que tentarei falar sobre os próximos dois filmes dessa Trilogia aqui no Amigos do Fórum. Fiquem atentos.

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