Ghost in the Shell é um clássico que precisa ser visto (e revisto)

A animação de 1995, claro

Luide
Luide
30 de março de 2017

“No futuro próximo, redes corporativas tentam alcançar as estrelas […] No entanto, o avanço da computorização ainda não eliminou a divisão do mundo em países ou grupos étnicos” é o que diz os créditos iniciais de Ghost in the Shell, que segue para a icônica cena onde Major salta de um prédio de cabeça pra baixo. Aqui é possível criar todo o universo que permeia o anime de 1995 com apenas uma frase, composta de palavras chaves do cyberpunk.

“Futuro próximo”, o domínio de “grandes corporações”, avanço “tecnológico” em conflito com a humanidade, e a “globalização” que tenta apagar de vez limites imaginários ou geográficos entre nações. Bastaram alguns segundos para Ghost in the Shell te lançar com força contra a parede. É o tipo de narrativa que Blade Runner, uma de suas inspirações, tem ao nos apresentar uma Los Angeles que arde a luz artificial e do fogo, que explode em uma demonstração clara do declínio ambiental e do homem.

É nesse cenário frio e pessimista que habita uma das obras mais importantes dos animes, e também do gênero. Ghost in the Shell é mais do que simplesmente um filme sobre os conflitos humano vs máquina, mas uma contemplação existencial do início ao fim. O tipo de obra que desafia a ansiedade moderna, e denuncia nossa falta de paciência ao simplesmente estender várias de suas cenas, deixando apenas que os olhos, ouvidos e a imaginação trabalhem. Se você procura por ação e exageros de ficção, Ghost in the Shell pode até te entreter, mas dificilmente irá além disso, já que sem sua autorização mental, fica difícil debater suas propostas.

O filme mergulha em conceitos filosóficos que, quando bem explorados, não cansam até o mais experiente fã de ficção científica. Toda questão envolvendo o “fantasma na concha” é bem trabalhada logo de início, quando um lixeiro tem sua vida destruída ao descobrir que sua mulher e filha não existem, e seu sofrimento não passa de implantes de memória. Ora, se aquilo que nos torna humanos e seres individuais é um emaranhado de lembranças que se transformam em ações, a dor da perca desse “pai” seria menor mesmo ele nunca tendo uma filha?

Mas somente essas provocações filosóficas não seriam suficientes se Ghost in the Shell não investisse em criar um novo mundo imaginativo. E quanto a isso, uma das forças que movem o filme é Major, com todo seu tormento de auto descoberta. A introdução do conceito de mecanização humana é outro fator interessante, com implantes que vão de dedos até mesmo cérebros (aliás, todo mundo ficou de queixo caído quando Elon Musk afirmou seu desejo de conectar o cérebro humano diretamente a um computador).

Até onde é possível modificar uma laranja sem antes ela se tornar mecânica?

Tudo isso dentro de uma mega cidade que parece não ter fim, com sua melancolia sempre exposta através da chuva, do clima nublado, das luzes tristes da noite e da trilha sonora que em momento algum é manipuladora, mas ainda sim nos transmite uma sensação inquietante. Que ambiente sufocante.

Nesse contexto onde a existência se torna uma rotina rumo a completa apatia, temos Major fazendo o caminho reverso. A auto descoberta, a noção de realidade do meu Eu vindo a tona. Tudo é muito bem colocado. Entre Blade Runner e Matrix existe Ghost in the Shell, e agora que sua história (ou parte dela) ganhou Hollywood, a oportunidade de mais e mais pessoas assistirem a animação de 1995 aumenta. E que seja uma oportunidade urgente, já que estamos falando de um jovem clássico.

Assista o reveja. A Rede é vasta e infinita.

 

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