Get Out é um terror sofisticado e inteligente sobre o racismo

Quando a mente de um humorista mergulha no terror pra falar sobre racismo

Luide
Luide
16 de maio de 2017

O humor é uma arma poderosa que nas mãos de diferentes pessoas, tem diferentes funções. Alguns se escondem atrás de piadas para propagar discursos de ódio, preconceitos e ideias ultrapassadas. Já outros percebem que, se usado com inteligência, é possível questionar e colocar o dedo na ferida de muita gente. O humor avacalha, mas também expõe o problema. É por isso que humoristas costumam ser pessoas versáteis, já que sentir o clima do momento e usar a combinação certa de palavras pode, ao mesmo tempo, despertar o riso e provocar aquele que ri.

Agora tente imaginar quando um humorista sai de sua zona de conforto e vai pro gênero de horror. E como se não bastasse, resolve falar sobre racismo. É o que o estreante diretor Jordan Peele se propôs em Get Out.

De roteirista de comédias e papéis em séries, Jordan Peele se tornou responsável pelo maior sucesso de crítica e renda nos cinemas em 2017.

É por isso que pra falar sobre Get Out é preciso falar sobre a mente de seu realizador. Jordan Peele tem a coragem típica de um humorista que não tem medo de expor a ferida. Seu filme é um terror sobre o racismo? Ótimo, o “monstro” não será um fantasma ou alien, mas sim os brancos. Direto ao ponto, sem muita margem para interpretações. Mas ao mesmo tempo, Get Out é sofisticadíssimo para falar sobre o tema, uma verdadeira aula de forma e conteúdo.

Get Out precisa ser dividido em camadas. São várias que compõe a linha de raciocínio de Jordan Peele. A primeira é seu protagonista. Chris (Daniel Kaluuya) é um homem negro em um relacionamento inter racial. Se isso seria improvável décadas atrás, hoje ainda é visto com muita desconfiança. Sempre calmo, o personagem será exposto ao típico racismo chapa branca, aquele do “que isso, eu tenho amigos negros“, tão comum quanto alguém que nega a existência do preconceito. A forma como ele lida com isso é um ponto a ser notado. Em seguida entra a segunda camada, que é a família de sua namorada.

Aqui temos uma forma muito sutil de explorar essa nova categoria de “não sou racista” em uma família que trata a cultura negra como algo exótico. O homem branco deslumbrado com outas culturas, que coleciona souvenirs de suas viagens a países de terceiro mundo, e está sempre muito “triste com tudo que está aí”. Preocupação expressa entre um copo ou outro de vinho francês. É aí que Get Out se mostra um filme inteligente. Ele trabalha com essa tensão que não é fisicamente evidente, nem é posta de maneira verbalizada. Chris sente que não é bem vindo e que existe algo de muito errado.

A terceira e última camada é como o próprio Chris irá reagir perante tudo isso. Muita gente acha que o filme foge do tom em seu terceiro ato, mas é um erro ver por essa forma. Acontece que passamos o filme todo presenciando o protagonista se esquivando de olhares, interiorizando tudo aquilo que vê e presencia. É o silêncio que a comunidade negra viveu (e ainda vive), mas que vem sendo quebrado cada vez mais, e isso, obvio, incomoda muita gente. Um exemplo claro é a bandeira do boicote que muitos levantaram contra Dear White People. Enquanto o negro estava quieto e o racismo era varrido pra debaixo do tapete, tudo funcionava.

Mas Chris explode. O protagonista reage e age contra tudo aquilo. Não existe mais meia conversa ou insinuações: é um homem negro lutando diretamente contra o racismo, e quando se trata disso, não existe espaço para conversa. Get Out termina tão brilhante como começou. É um filmaço e sua importância atinge várias áreas da cultura pop.

De como a arte precisa ser provocadora, até como bons filmes podem ser feitos sem muito holofote e rios de dinheiros. Corra, você não vai querer perder Get Out.

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