Eu vou morrer, mas resolvi me tornar imortal

A Ghost Story é uma tocante e melancólica mensagem sobre mortalidade.

Luide
Luide
27 de setembro de 2017

Buscar um “sentido” para a vida se tornou um negócio bilionário. Livros, palestras, gurus que ensinam a maneira correta de viver cada segundo. Fórmula de como ser feliz, onde gastar seu dinheiro e coisas pra se fazer antes de morrer. A vida pode ter um sentido, mas ela custa dinheiro. Pra você entender esse tal sentido, e depois executá-lo. Mas a verdade que dói (ou talvez cure essa ansiedade?) é que a única razão da existência da vida é o seu fim. “A única certeza que temos na vida é a morte“: talvez essa frase de porta de banheiro público explique o tal “sentido da vida”. O sentido de viver é saber que vamos morrer, e nesse meio tempo entre o nascimento e o descanso eterno, fazer alguma coisa que compense e nos torne imortais através das memórias de nossas ações.

Em um determinado momento em A Ghost Story, um homem lança a seguinte ideia: mesmo que um dia a humanidade entre em colapso e voltemos a idade da pedra, é possível que um desses sobreviventes cantarole trechos da nona sinfonia de Beethoven. Mesmo que o mundo vire do avesso, bombas explodam, em alguma caverna a obra do compositor alemão o manterá vivo. Não seria isso uma forma de imortalidade? O legado do ser humano é o que mantém vivo? Se nossas ações não podem ser desfeitas, significa que elas estão presas pra sempre no tempo, mas e no caso dessas mesmas ações serem importantes? Elas irão caminhar pra sempre ao lado do tempo.

Permanecer vivo após a minha morte se tornou uma obsessão. Como? Através do meu legado. E não, eu não falo de um legado que salve a humanidade ou de uma sinfonia, é algo mais humanamente possível. Como por exemplo, criar minha filha da melhor maneira possível. É nela que minha história ficará registrada para uma próxima geração. É nela que meu sangue e DNA estão armazenados. É assim de uma maneira ou de outra, permanecerei vivo. E é isso que quero: ser uma doce memória para ela. Que ela se lembre de mim e faça outras pessoas se lembrarem.

A Ghost Story, dirigido por David Lowery (Meu Amigo Dragão) e produção da A24 (Ex-Machina, Moonlight) é uma tocante e melancólica mensagem sobre mortalidade.

Casey Affleck e Rooney Mara vivem um casal típico (seus nomes não são mencionados) até que um dia, um acidente tira a vida de C. (vamos chamar o personagem de Affleck assim). Deitado em uma cama e coberto por um lençol, C. acorda, mas não para a vida, mas para a eternidade: agora ele é um fantasma. E um fantasma clássico, aquele com lençol branco (o mesmo que cobria seu corpo) e dois furos no lugar dos olhos. C. então retorna para seu lar, e lá fica sem entender o motivo. Ele não fala, apenas observa. O tempo, o espaço, a vida… tudo se passa diante de seus olhos.

A Ghost Story tem momentos de silêncio, de contemplação e muito desespero. É isso que nos aguarda no pós-morte? Nos tornarmos uma espécie de voyer do espaço-tempo? C. vê a vida avançar, sua esposa ir embora, novos moradores habitarem a casa e etc, etc… está ali há tanto tempo que nem se recordar mais. E de repente, tudo volta. É o eterno retorno.

As religiões criaram suas próprias respostas para a morte, a ciência também. Em cada região desse planeta o ser humano teorizou ou imaginou como é o fim. De jantares em Valhalla à reencarnação. Mas se a morte é certa, que sentido faz se preocupar com ela? O jeito é fazer de tudo para reverter esse destino da melhor forma possível: se tornando imortal, cada um à sua maneira.

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