A estranha relação entre o fã e aquilo que ele gosta

"Meu Deus! Olha essa nota do Rotten Tomatoes"

Luide
Luide
12 de março de 2017

Se sentir parte de um grupo é quase uma necessidade natural do ser humano, e graças a internet, esse relacionamento não precisa mais ser algo físico. Comunidades, grupos, fóruns e redes sociais possibilitaram a entrada franca a certos clubinhos que antes, ou eram secretos, ou estavam longe de você. Na cultura pop esses locais de veneração a determinadas obras não se limitam mais a convenções e eventos nerds, qualquer um pode criar um grupo no facebook e dedicar seus dias a amar seu super herói favorito.

O fã agora tem um terreno onde pode se firmar como tal. Se na escola ele era o único com uma camisa do Star Wars, agora ele tem milhares de pessoas que pensam como ele. Sai a vergonha e entra o orgulho. Sai o solitário, e entra o membro do grupo.

A principal missão do fã na internet é mostrar as pessoas que elas estão erradas. Quem não gosta tanto assim, ou gosta daquilo que não deveria gostar, geralmente precisa lidar com uma enxurrada de argumentos e acusações. Essa mentalidade de manada da vida a personagens fictícios como “o fã da marvel/dc“, restrições absurdas como ser obrigado a odiar a nova trilogia de Star Wars e carteiradas (“li mais gibis que você, sei do que estou falando”).

Com a cultura pop deixando de vez o underground, o medo agora não é de ser ridicularizado pelos descolados da escola, mas sim de não parecer “tão fã” perante a comunidade. O que vai aos poucos criando uma geração de afetados, mais preocupados com referências e similaridades com a obra original do que qualquer outra coisa. A grande preocupação do nerd hoje é se o Thor irá usar uma roupa igual a dos quadrinhos, não se o filme será bom.

O esse novo fã também se engaja em causas banais, como defender o filme que ele gosta de críticas e pessoas menos entusiasmadas. Todo mundo sabe dos defeitos de Batman V Superman, mas a onda de pseudo-críticos apontando “furos de roteiros” (quando nem ao menos sabem o que isso significa) e outros problemas, da ao fã a munição que ele precisa para se colocar contra uma suposta perseguição. Se torna uma missão consciente: se um lado exalta os erros, o outro irá exaltar as qualidades. E cria-se a guerra.

Uma vez definido seu lado, é impossível ficar em cima do muro. Ou seja, filmes e séries acabam se transformando em uma rinha de “certo” ou “errado”, onde poucos conseguem debater valores, lições e temas abordados até mesmo na pior das obras. A preocupação é com o Box Office e a ansiedade da nota no Rotten Tomatoes.

Não importa o tipo de mídia (filme, game ou quadrinho) que você consuma, o peso que eles terão em sua vida é você quem define. Quando Breaking Bad deixa de ser uma obra contemplativa onde você procura meios de assimilar aquilo ao seu dia-a-dia, e passar ser apenas um número em lista de Melhores Séries de Todos os Tempos, tudo que foi mostrado perde grande parte do valor.

Se o filme é bom pra você, ninguém pode provar que isso é errado. A partir do momento que precisamos de aprovação de terceiros para termos certeza que gostamos de algo, é porque está tudo indo pro ralo.

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