Entre a realidade e a loucura de House Of Cards

Apesar das comparações com a realidade, é no exagero que House Of Cards vem encontrando seu brilho

Luide
Luide
8 de junho de 2017

Frank Underwood se apresentou ao público em uma cena que ilustra bem a forma com que o personagem lida com problemas. O cachorro atropelado, agonizando, é sufocado pelo ainda congressista. Para Frank, existem dois tipos de dor, aquela que ajuda a se fortalecer e aquela que apenas faz sofrer é descartável. Foi assim que desde então, House Of Cards vem construindo sua ascensão, um homem que avança em território inimigo, pronto para sufocar aqueles que estão em seu caminho. Pois afinal, diante do casal Underwood, todos são cães agonizando, esperando apenas um golpe de misericórdia.

Esse quinto ano começou tenso. Mudanças na Casa Branca e também no comando da série deram o tom dos episódios. Beau Willimon deixou o posto de showrunner, e agora é Frank Pugliese e Melissa James Gibson que assumem a responsabilidade de dar coerência a ascensão de Frank e Claire. Os primeiros episódios mostram que o caminho continua sendo feito de chantagens, um jogo sujo e inescrupuloso de poder. E House Of Cards acerta em deixar de lado a realidade, e levar mais a sério a palavra ficção.

Há um episódio que simboliza esse acerto: Chapter 59. Uma ameaça terrorista leva a alta cúpula da presidência para o bunker da Casa Branca, e toda a tensão é construída na ideia de um caminhão com produtos nucleares roubado. No final tudo não passou de uma tentativa de golpe, e é justamente esse exercício de extrapolação da realidade que muitas vezes torna House Of Cards um ótimo entretenimento. Afinal, no fim das contas, nós sabemos que Frank sempre irá contornar seus oponentes e isso está se tornando monótono. O mesmo se pode dizer de Chapter 60 e toda aquele ritual de milionários, juntamente com o resgate do navio russo.

A loucura também é bem vinda.

Mas House Of Cards nunca abandonou esse cinismo de jogar com acontecimentos reais, e claro, sobraram comparações a eleição de Donald Trump. Os novos showrunners comentaram a respeito disso, e afirmam ao THR que tudo foi gravado antes. Mesmo assim, a forma como a democracia é fragilidade na série, mas principalmente nesse quinto ano, abre um leque de interpretações diferentes. Será que Frank estava certo em dizer que ela é superestimada? Em House Of Cards ela é, não há como negar.

E tem que ser. Momentos improváveis são uma ótima forma de levar o espectador para uma zona cinzenta, onde fica difícil prever o próximo passo. O lance do cara ou coroa? Eu torci de verdade para a eleição ser resolvida assim.

Dentro da narrativa, são perceptíveis as mudanças, e talvez House Of Cards busque encontrar um meio termo entre brincar com fatos reais, ao mesmo tempo que exagera em outras coisas, assumindo seu papel de obra ficcional. Essa mistura é perfeitamente concretizada no próprio Frank: ele usa de terror para manter o controle da máquina do Estado, mas é praticamente uma força indestrutível, irreal até para os padrões malucos da atual situação política no mundo.

House Of Cards infelizmente é boicotado pelo próprio formato da Netflix, que não permite uma imersão maior em suas próprias séries. É claro que a escolha individual deveria prevalecer e ninguém te força a nada, mas o público já se acostumou com maratonas e consumir quase 13 horas de série em cerca de dois dias, tira dele a capacidade de debater pequenos detalhes. De toda forma, ainda estamos diante do melhor drama produzido pelo serviço de streaming.

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