Enquanto adaptação, Death Note faz o que deveria ser feito

É preciso mudar algumas coisas para que aquela história faça sentido em um lugar específico. E nisso o Death Note da Netflix acerta.

Luide
Luide
1 de setembro de 2017

Quando se trata de adaptações para cinema ou tv, nada é mais sensível que a paixão dos fãs pela fidelidade ao material de origem. Vemos isso acontecer o tempo todo, e o grande exemplo atual é Game Of Thrones, onde a cada temporada que passa, o embate “livro vs série” cria calorosas discussões. Afinal, até que ponto os roteiristas precisam “respeitar” o cânone para escrever uma adaptação? Ou melhor: é preciso mesmo respeitar alguma coisa? Se for pra refazer exatamente aquilo que já foi feito, não seria melhor não fazer?

São questões, mas Hollywood pouco se importa com elas. Para a indústria do cinema todo mangá, anime, quadrinho, livro, game e etc é um potencial mar de dinheiro. O fã que se dane, aliás, o fã que xingue, que odeie, quanto mais ele falar, mais publicidade espontânea ele gera. No fim das contas, adaptações são ótimas iscas já que antes de estrear, já carregam em si toda uma base de pessoas que irão acompanhar aquela obra na mídia que for. A Netflix que não é boba nem nada, resolveu colocar a mão em um vespeiro chamado Death Note e fazer sua versão americana de um clássico mangá.

Bom, vamos tentar entender o que significa “adaptar para o público americano”, que é o principal mercado da Netflix. A crítica principal de que o serviço de streaming estaria “embranquecendo” Death Note faz e não faz sentido. Faz porque é isso que o cinema americano sempre fez, mas nesse caso específico tem uma certa razão: o problema real seria se, por exemplo, a história do filme também se passasse no Japão, mas como atores ocidentais. Aí sim seria um insulto.

Mas enquanto uma adaptação, Death Note cumpre exatamente seu papel. Ele subverte seus protagonistas porque isso é essencial para a história funcionar em solo americano. Light ser um estudante médio que se acha especial por tirar boas notas é o retrato do adolescente ocidental egoísta e deslocado. A caricatura do mangá não funciona aqui, esse fetiche pelo Kira “original” existe pelo fato da mídia em que ele é estabelecido permitir esse tipo de exagero: o adolescente extremamente inteligente e versátil, cheio de talentos sociais, que consegue driblar meio mundo. Se ao invés de adaptar o personagem para o público americano o diretor Adam Wingard recriasse cada detalhe da personalidade de Light, as chances disso soar estúpido seriam ainda maiores.

Light reage ao que vê da forma que hipoteticamente um adolescente médio americano reagiria: como pavor, mas também com maravilhamento . Aliás, outro grande acerto nesse personagem é sua total falta de objetivo com o livro. Ele simplesmente não tem um plano de limpeza moral do mundo, muito menos de exaltação de si próprio. Light Turner é completamente manipulável e fraco, e o deboche que o próprio Ryuk tem com ele, deixa claro sua incapacidade de lidar com tamanho poder. Afinal de contas, não é isso que tanto se diz sobre os millennials? Que eles são sensíveis, não possuem instabilidade emocional, não tem ideia do que querem, além de serem totalmente apáticos com o mundo a sua volta?

Adam Wingard: “me deixa adaptar em paz”

É bom deixar claro que o mangá é superior tanto ao anime quanto ao filme. Mas o mangá é uma mídia, o anime outra e um filme americano, bom, é outra ainda mais diferente. Aspectos do anime como o drama exagerado, as frases rebuscadas de efeito, a trilha sonora grandiosa até mesmo quando o personagem come uma batatinha não cabem em um longa metragem live action. No anime fica bem legal, você compra a ideia, mas não funciona em outras mídias.

Death Note pode ser ruim como filme, mas é importante que seja visto como uma adaptação de verdade. Sabe o que o Nolan fez com o Batman dele? Então, é mais ou menos isso. Você precisa mudar algumas coisas, quebrar as regras do “cânone” e fazer a ideia central da história funcionar naquele universo específico. Não vejo isso como um desrespeito, muito pelo contrário, defendo que essas deturpações sejam feitas. Se o resultado é positivo ou negativo vai depender de quem o faz.

No fim das contas, o Light americano quer apenas o que todo adolescente ocidental quer: dar uns beijos na boca e impressionar a gatinha.

 

Seja doador e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 10/10/2017

  • Luide

Jogo Perigoso: a violência imposta através do silêncio

  • 09/10/2017

  • Luide

Blade Runner 2049 e o poder de uma lembrança

  • 04/10/2017

  • Luide

Lindo, provocador e histórico. Estamos falando de Blade Runner 2049