É uma vergonha não assistir “Eu, Daniel Blake”

Um filme urgente

Luide
Luide
6 de março de 2017

O homem comum e seus problemas comuns. O quão difícil é realizar uma obra baseada nesses elementos, e ao mesmo tempo ser intensa e poderosa? Eu, Daniel Blake, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2016, é um exemplo de como o “comum” pode ser feito de maneira magistral. Talvez porque ficções e fantasias estão longe de atingir a mesma intensidade dramática do nosso cotidiano. A vida, o dia-a-dia, ainda é palco das maiores lições.

De maneira simplista, Eu, Daniel Blake, é a história de um homem buscando seus direitos contra um Estado burocrático. Mas é simplesmente impossível falar sobre esse filme usando apenas uma ou duas frases. É complexo demais, e principalmente urgente. Tão urgente que o sentimento de estarmos a um passo de nos tornarmos o próximo “Daniel Blake” é inquietante.

A figura universal do “cidadão comum” é explorada de maneira absurda em Eu, Daniel Blake. Depois de sofrer um AVC, o protagonista cujo nome da título ao longa, é orientado pelos médicos a não voltar a trabalhar, já que seu emprego depende do poder braçal. Em busca de seus direitos (algo importante de se entender aqui), ele encontra na burocracia do Estado a completa desumanização.

Nos tornamos números sociais presos em labirintos de leis. É sufocante o vai e vem de papelada, telefonemas e repartições que ele precisa enfrentar. Humilhado e marginalizado, Daniel ainda precisa lidar com a mentalidade de que está a procura de esmolas: seguro desemprego, aposentadoria, carteira assinada e outros benefícios não mais vistos como um direto.

“As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista”

Foram as palavras do cineasta Ken Loach, que aos 80 anos dirige Eu, Daniel Blake. Há uma certa carga de “culpa” na situação do personagem, ou seja, o Estado e mais ninguém pode ser responsabilizado pelo que ele passa. É por isso que em determinado momento, Daniel é lembrado que toda essa burocracia existe para fazer os “fracos desistirem“. Se um idoso simplesmente não sabe preencher um documento online, não existe outra opção, e seu direito não será assegurado. Sendo assim, é culpa dele ser despejado por falta de pagamento de aluguel.

Por outro lado, Eu, Daniel Blake tem uma forte mensagem de otimismo quando se trata da relação entre os personagens. Mesmo com todos esses empecilhos para seguir a normalidade da vida (trabalhar, trabalhar e trabalhar), o viúvo e agora desempregado Daniel, poderia se ausentar do mundo e seus problemas. Mas não, ele mostra que é possível enxergar em meio a escuridão. Encontra tempo e energia para auxiliar uma mãe solteira que passa por necessidades ainda piores que a sua. É a tal da empatia, que não transforma os nossos problemas pessoais em bandeira para despejar ódio contra tudo e todos.

Eu posso ser o próximo Daniel Blake

Mas não é só isso. Eu, Daniel Blake é um retrato simples da atual situação do mundo e das calorosas discussões em tempo de fingimento na internet. É difícil sair apático dele. E também é difícil como algo tão bom passa despercebido por todos, inclusive por um site como o Amigos do Fórum que se compromete a “falar de cultura pop“. É uma vergonha não dar a devido atenção pra esse filme.

E que filmaço.

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