E se você descobrisse quem realmente é?

Documentário Jim & Andy nos leva aos bastidores de O Mundo de Andy e da mente de Jim Carrey.

Luide
Luide
23 de novembro de 2017

Ace Ventura, O Máskara e Débi & Loide. Três clássicos da cultura pop em um mesmo ano, todos interpretados pelo mesmo ator. É difícil apontar um nome mais poderoso que o de Jim Carrey quando se fala de comediantes nas últimas 3 décadas. Aliás, em filmes como O Show de Truman e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças ele mostra que toda sua versatilidade vai além de fazer rir. Apesar de tantos papéis icônicos, e por ser lembrado como o ator de caras e bocas que parece viver sempre feliz e sorridente, nessa semana final de novembro, o ator declarou que está curado da depressão.

“Eu tive depressão durante anos, mas hoje, quando a chuva vem, ela passa rápido. Não fica o suficiente para me sobrepor”

Ainda nos espantamos quando sabemos de coisas assim. A máscara que certas personalidades (ou até mesmo pessoas do nosso convívio) vestem diariamente para viver em sociedade, seja atuando ou sendo apenas um pai, pode se tornar um fardo. Esconder atrás de um sorriso nossos verdadeiros sentimentos não é tão incomum assim, mas ao fazermos isso sistematicamente, ou atribuirmos a nossa personalidade traços que não são verdadeiros, vamos aos poucos suprimindo aquela essência interior. É como se toda manhã pintássemos o espelho do banheiro com várias camadas de tinta até ficar impossível de ver o próprio reflexo.

Em 1999 O Mundo de Andy estreou nos cinemas. A cinebiografia do comediante Andy Kaufman, dirigida por ninguém menos que Milos Forman (Um Estranho no Ninho, Amadeus), ficou marcada pela forma como Jim Carrey se entregou ao personagem, não apenas atuando quando o diretor pede, mas o tempo todo, inclusive além dos bastidores. Carrey que tem Kaufman como uma de suas inspirações, passou meses “dividindo” seu corpo com o comediante falecido no meio da década de 80.

Ok, isso pode parecer um tanto absurdo para nós. Como assim você se transforma em outra pessoa por simplesmente atuar? Não é incomum encontrar histórias do tipo em produções, e o documentário Jim & Andy: The Great Beyond se aproveita dessas imagens estranhas e incômodas de Jim Carrey “entrando no personagem” para nos levar a um passeio sobre a vida e a filosofia do ator.

Quando a produção de O Mundo de Andy começou, Carrey pediu Lynne Margulies e Bob Zmuda (namorada e melhor amigo de Kaufman) criassem uma espécie de making-of do filme. Bom, a loucura foi tamanha que a Universal proibiu o material de ser vinculado, já que aquilo poderia causar um impacto negativo na pessoa de Jim Carrey, e consequentemente, na bilheteria do filme estrelado por ele. Quase 20 anos depois, esse material foi retirado do armário e o diretor Chris Smith cria esse belíssimo retrato sobre a carreira e vida pessoal de Carrey, mostrando um lado do ator que poucos conhecem. Mostrando sua fragilidade.

Ver Carrey em frente as câmeras tranquilo, sem muito gesticular, e dizendo coisas sobre a vida, o universo, e sociedade, é um produto que cria uma mistura de sentimentos da parte de quem assiste. Será que suas palavras servem apenas para descrever a ele mesmo, ou isso é algo que de fato acontece com todo mundo? Nos tornamos personagens para sermos aceitos ou esse cara, aqui e agora lendo esse texto, é a mesma pessoa em qualquer ambiente?

Sozinho, no escuro, quem realmente está aí?

“Quando você se cria para o sucesso, ou você vai ter que deixar a criação de lado, e arriscar se amado ou odiado por ser quem é, ou você terá que matar quem é, e cair na sua cova.”

Jim Carrey teve que entender quem realmente é. Talvez nós tenhamos também.

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