É difícil assistir The Handmaid’s Tale. Mas é preciso

É forte, mas é necessária

Luide
Luide
16 de maio de 2017

A arte também precisa ser provocadora. Dizer aquilo que a maioria não quer ouvir, mostrar aquilo que ninguém quer ver. E quando isso é feito de uma maneira que engloba qualidade de produção, bons roteiros e um ótimo elenco, temos uma obra perfeita da cultura pop. O mais novo exemplo de como um tema pertinente pode ser trabalhado de uma maneira ousada e criativa é The Handmaid’s Tale.

Lembro do meu primeiro contato com Mr. Robot e toda aquele experimentalismo estético misturado a uma história que parecia pequena e clichê, mas com o tempo se mostrou algo gigante e cheia de camadas. É desde então minha estreia favorita na televisão e agora caminha para o terceiro ano. Nesse meio tempo conheci muita coisa boa, mas poucas ligaram um sinal de alerta tão forte quanto The Handmaid’s Tale.

Mesmo em universos diferentes, ambas as séries promovem um exagero do presente e mostram suas fragilidades. Se em Mr. Robot temos o domínio das grandes corporações, em The Handmaid’s Tale é o Estado aliado da religião quem oprime. E é sempre importante ressaltar que não se trata de uma demonização de nenhuma dessas instituições, mas um exercício de imaginação e extrapolação baseado no que já acontece.

A escritora do livro que da nome e origem a série, Margaret Atwood, falou a respeito em um artigo para o The New York Times:

‘The Handmaid’s Tale’ é contra a religião? Novamente, depende do que você acha. É verdade, um grupo de homens autoritários tomam o controle e tentam retomar uma versão extrema do patriarcado, na qual mulheres (como escravos americanos do século 19) são proibidas de ler. Mais para a frente, elas não podem mais ter dinheiro ou ter empregos fora de casa, ao contrário de algumas mulheres na Bíblia. No livro, a ‘religião’ dominante quer obter controle doutrinário, e denominações religiosas familiares a nós estão sendo aniquiladas. Então o livro não é anti-religião. É contra o uso da religião como justificativa para a tirania; o que é algo totalmente diferente”

Esteticamente atraente, a fotografia de The Handmaids Tale é obra da diretora Reed Morano

Ou seja, The Handmaid’s Tale atua dentro dos limites da podridão humana, e mostra como seria uma sociedade onde todos os direitos das mulheres fossem retirados, para logo em seguida, serem aplicadas funções específicas para cada uma delas. A mais em evidência é a de Aia, personagem vivida por Elisabeth Moss. Seu papel na sociedade é o de reprodução, já que uma epidemia de infertilidade dominou os EUA.

Em um determinado momento, um personagem diz que agora as mulheres estão seguras para “cumprirem seu papel biológico“. Assim, a série passa a sufocar o espectador como questões espinhosas e que precisam estar em pauta. Do estupro até de como a sociedade encara a mulher, seja no mercado de trabalho, seja na maternidade.

Como consumidor de séries, sou obsessivo com coisas novas e que façam diferente. Fico entusiasmado quando vejo algo assim. Quanto mais gente vendo coisa boa, melhor pra todo mundo. E portanto, mesmo que The Handmaid’s Tale bata como um golpe, siga vendo, é preciso.

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