A diferença entre ser engraçado e ser metido a engraçado

Dentro do que chamam de "Fórmula Marvel", Thor: Ragnarok é um filme mais original do que você pensa.

Luide
Luide
7 de novembro de 2017

5 bilhões de dólares. Essa é a quantia que a Marvel soma apenas em solo americano (ainda o principal mercado do cinema). Uma marca que coloca os heróis como a franquia mais bem sucedida por lá, superando até mesmo Star Wars e Harry Potter. Não é de se espantar com números assim, afinal, ninguém sabe fazer filmes sob medida como a Disney, e no que diz respeito a Marvel então, é praticamente uma aula. A tal “fórmula” é o bem mais precioso do cinema no século XXI. Parece fácil de fazer, mas com outros estúdios é só tombo em cima de tombo.

Até Os Vingadores de 2012, os quatro filmes da franquia tinham lá sua mesma pegada, o famigerado “tom”, mas foi depois de Joss Whedon que a coisa começou a desandar pro humor pastelão e se firmar como a “Fórmula Marvel“: não importa a gravidade da situação, você irá rir nos próximos minutos. Aguarde e confie. Isso pode desagradar um ou outro que se “cansou de filme de herói“, mas pro grande público isso nunca foi pauta. Estão aí os 5 bilhões que não me deixam mentir.

Mas tá. Beleza.

Em 2016 veio Deadpool que fez muita grana. E depois veio Logan que também fez muita grana. Mulher Maravilha também fez muita grana e passou longe da tal formulinha. Será que a Marvel, a poderosa Marvel, iria se “reinventar” e fazer filmes de super heróis de gêneros ou buscando um caminho menos despretensioso? Que tal se isso fosse testado no terceiro longa do Thor, herói com os piores filmes de seu Universo Cinematográfico, e com o tema Ragnarok? Orra, aí sim, hein? Trágico demais pra rir do fim do mundo.

Mas que tal não?

Thor: Ragnarok é uma legítima comédia. E é realmente engraçado.

Existe uma diferença entre ser engraçado e tentar ser engraçado. O clássico “tio do pavê” sempre foi o símbolo desse tipo de situação. Aquele humor forçado ou pontual. O exemplo mais evidente disso é Dr. Estranho, uma história que em nada combina com as piadas que eles tentam enfiar ali no meio (como aquele momento horroroso e patético da Beyonce). É como se o espectador fosse proibido de ficar tenso ou sério por alguns minutos, e a Marvel tentasse nos lembrar quem eles são. Sabe o Zack Snyder e sua câmera lenta que foca nos traumas de seus personagens, pra você não se esquecer do sofrimento deles? É isso que a Marvel faz, ao contrário, desde 2012.

Mas no caso de Thor: Ragnarok isso não existe. O filme é, do começo ao fim, uma comédia. Não tem meio termo e não existe outra palavra pra resumir o que Taika Waititi fez. Em primeiro lugar estamos falando de um diretor que tem um histórico no humor, bem peculiar, claro, mas ainda assim humor. Dar a ele o que em tese deveria ser o filme mais sério e sisudo do personagem foi uma excelente contraversão. Ele simplesmente subverte tudo que aprendemos sobre aqueles personagens e dane-se como eles se portaram em histórias anteriores e portarão daqui pra frente.

Muito se reclama da falta de liberdade criativa que diretores encontram ao trabalhar com a Marvel, por outro lado, existem aqueles que conseguem driblar esse tal bloqueio. James Gunn é um deles, mas na boa, Taika Waititi fez ainda mais. Da verdadeira desconstrução dos personagens até mesmo o impossível feito de uma trilha sonora realmente original e que fique na memória. É um feito e tanto…

O Thor sempre foi um personagem escroto e ridiculamente desenvolvido. Já que esse cara nunca fez diferença, porque não apostar alto? Chris Hemsworth funciona melhor na comédia do que tentando se passar por um deus marrento. Mas da pra entender o fã que não gostou, achou que “infantilizaram” ou “teve muito humor”. É normal. Fã de quadrinho costuma odiar qualquer coisa que não corresponda a sua memória da afetiva (“ah porque quando eu era criança o Thor era assim”, essas conversas). Mas o fato é que Thor: Ragnarok é um filme tão original e diferente da maioria quanto Logan. É fato.

A diferença entre Thor: Ragnarok e outros longas da Marvel é que esse realmente é engraçado. O resto é o tio divorciado contanto piada de peido no Natal.

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