David Lynch obliterou a televisão com Part 8 de Twin Peaks

Assim como há 27 anos, David Lynch faz de Twin Peaks uma explosão nuclear.

Luide
Luide
12 de julho de 2017

Até o terceiro episódio da primeira temporada, Twin Peaks seguia por uma linha narrativa até que simples aos olhos do público: um crime, um assassino e um lugar isolado um tanto estranho. Mas é justamente no final desse terceiro episódio que David Lynch vira a televisão de cabeça pra baixo, e coloca tudo sob uma nova perspectiva. O sonho de Cooper envolvendo um anão dançarino, e a própria Laura Palmer, dava a Twin Peaks o ar de novidade na televisão.

Imagine isso no início dos anos 90 onde o que se consumia em séries eram produtos entalados, com seus casos da semana e personagens que se repetiam. Twin Peaks era exibida em TV aberta, na ABC, e sua estreia teve uma audiência superior a 30 milhões de espectadores. Imagine… imagine o impacto disso. Enquanto a HBO ostentava uma certa liberdade por ser um canal a cabo, ou seja, não ser refém da audiência, David Lynch não se preocupou se as pessoas iriam reagir bem ou não a um anão, ele foi lá e fez. E fez. A história foi feita.

Toda série possui aquele episódio que a define. Quando The Sopranos foi ao ar, David Chase colocou um criminoso como protagonista dentro da sala dos americanos. Era o início da chamada Terceira Era de Ouro e o arco dramático do “anti-herói”. Mas somente quando College (o quinto da primeira temporada) mostrou que Tony Soprano era de fato um bandido, onde durante uma viagem com a filha encontra tempo para assassinar alguém, é que tudo ficou claro: Sopranos é isso.

Em Breaking Bad temos Ozymandias que elava a tragédia da série no seu máximo, Game Of Thrones e seu Casamento Vermelho (ou Batalha dos Bastardos com seu espetáculo visual). Porém mesmo com toda sua importância, esses episódios orbitam por um limite narrativo bastante acessível, só que assim como aconteceu há 27 anos, Twin Peaks volta a fazer história na televisão com um episódio que nem mesmo os fãs, acostumados com a imaginação de David Lynch, esperavam algum dia assistir.

Part 8 é um acontecimento na televisão, e não há dúvidas sobre isso. Um clássico só se torna um clássico com o passar do tempo e quando sua influência pode ser medida, mas em relação a Twin Peaks e tudo que conhecemos como “série de tv”, esse episódio é um clássico instantâneo por fazer aquilo que ninguém fez, ou teve coragem de fazer. Não se pode chamar de inédito o que a liberdade que a Showtime deu a David Lynch, mas o que Lynch fez com essa liberdade talvez seja. É como soltar o cachorro da coleira e não se importar com sofás rasgados e lixos revirados. Faz aí o que você tem que fazer, voltamos daqui há 18 episódios.

Em 16 de julho de 1945, o homem presenciava o nascimento de sua maior e mais destrutiva arma. O teste da Trinity, o primeiro nuclear da história, colocou nossa própria existência em uma nova perspectiva. De repente, tínhamos o poder dos deuses de aniquilar civilizações inteiras, tal como um capítulo da bíblia. Poucos meses depois, esse teste se tornaria uma brutal experiência para duas cidades japonesas. Embora muitos creditam às bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki o fim definitivo da Segunda Guerra, o horror vivido por aquelas pessoas não seria diminuído por qualquer explicação. Era um mal inédito.

Desde a explosão de Trinity naquela madrugada de julho de 1945, vivemos sob a possibilidade de extermínio ao alcance de um botão. Se algum dia Rússia e EUA decidirem que chegou a nossa hora, adeus, nos vemos do outro lado.

Tamanho poder rompeu uma barreira lógica humana, mas em Twin Peaks foi o início de sua mitologia. Part 8 não deixa de ser uma explosão atômica na televisão: o primeiro contato é de maravilhamento, confusão e medo. São vários motivos que nos levam a crer que é impossível algo assim ser transmitido na televisão em pleno 2017. Mas passado a onda de choque vem as revelações. Nada é gratuito, e tudo ganha contornos ainda mais sombrios. Bob, Laura Palmar, o Gigante: símbolos de Twin Peaks ganhando uma nova forma de serem encarados.

Essa explosão ainda queima e agora é ver como tudo a sua volta irá reagir. Da mesma forma que muitos contestaram a sanidade de Lynch quando o anão falou de trás pra frente, muitos vão questionar agora. Ou então nem irão perder seu tempo com análises e vão desistir. Não importa, o que está feito está feito. A única certeza é que será difícil olhar pra qualquer coisa em 2017, tanto no cinema como nas série, e não imaginar o que poderia ser feito se todos tivessem a coragem de um realizador como David Lynch.

Pra ler: o que Part 8 significa dentro da mitologia de Twin Peaks.
Pra ouvir: dissecando (ou ao menos tentando) Part 8.

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