Bojack Horseman é uma ótima série de comédia feita por um fã de série dramática

Um cavalo frustrado e desprezível. Não tem como dar errado

Luide
Luide
13 de março de 2017

Pegue um Tony Soprano sem a imponência física e tire todo charme de Don Draper. Misture isso a um cavalo e temos o anti-herói mais bizarro da televisão. BoJack Horseman não é apenas uma sátira da vida tediosa e moralmente devastada das celebridades em decadência, mas de todo o formato consagrado pela televisão desde que Sopranos foi ao ar em 1999. É nitidamente uma comedia feita por um fã das melhores séries dramáticas dos últimos anos. Tem como isso dar errado? Impossível.

Raphael Bob-Waksberg, criador de BoJack, não esconde sua paixão e faz referência em cima de referência, mas não se apoia nisso para criar uma boa série. Tudo é posto na forma de homenagem e como dito, se transforma em uma sátira mais do que bem feita. O protagonista segue o arquétipo do homem difícil: o fantasma do passado que persegue, a dificuldade em se relacionar, as frustrações do trabalho se mesclando com as pessoais. Como se não fosse o bastante para reconhecer em um cavalo os grandes personagens da televisão, já no primeiro episódio BoJack tem uma crise de ansiedade (assim como Tony Soprano) e temos uma ideia da sua criação (a mãe passivo agressiva ao melhor estilo Livia Soprano e o pai abusivo idêntico ao de Draper).

Bom, o poster mata qualquer dúvida a respeito das homenagens em Bojack:

Tudo isso, claro, seria invalidado se BoJack Horseman não caminhasse com as próprias pernas. Mas longe disso. A série é totalmente imaginativa ao misturar animais e seres humanos em um mesmo universo. Isso cria um apelo cômico único quando o instinto de alguns desses personagens fala mais alto (a foca que fica nervosa e começa a grunhir, os pombos que ao se assustar saem voando), fazendo um belíssimo paralelo com os exageros humano.

Apesar da comédia imposta desde o primeiro momento, BoJack orbita em um tom pessimista e melancólico. O protagonista beberrão e desprezível ser um ex-ator de uma clássica sitcom oitentista deixa tudo ainda pior. É a típica vida dupla vivida por personalidades, onde é preciso cultivar uma imagem para o público, e lutar para manter uma privada, que quase sempre é devastada por essa colisão de realidades. Se na televisão BoJack era um pai adotivo feliz e bom conselheiro, fora das câmeras não passa de um ególatra frustrado e auto-destrutivo.

BoJack Horseman não perde uma única oportunidade de ironizar cada detalhe dessa grande indústria do entretenimento e ídolos entalados. Mas graças a seu desprendimento com a realidade e (principalmente) seriedade, a crítica não se torna vazia ou puramente infantil. A piada envolvendo David Chase (The Sopranos) e Steven Bochco (Hill Street Blues) é genial e resume bem o intuito da série: “ok, isso aqui pode parecer muito dramático, mas é ridículo“.

Tudo isso com o dinamismo de 25 minutos que não deixa a série perder o ritmo e favorece o formato bind watching que consagrou a Netflix. BoJack Horseman é inteligente e mesmo com a comédia no DNA, consegue ser mais densa que muita porcaria metida hoje em dia. É o que acontece quando temos um criador totalmente influenciado pelo que de melhor existe em termo de séries.

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