A bobagem dos “filmes adultos” chegou em Hellboy

Ah, mas pelo amor de Deus, viu

Luide
Luide
9 de maio de 2017

Hellboy (2004) e Hellboy II: O Exército Dourado (2008) são dois bons filmes de “heróis”, e totalmente diferentes do que estamos acostumados a consumir hoje. O culpado disso é Guillermo del Toro, diretor de ambos, famoso por sua imaginação fértil e criação de mundos. O cara, por outro lado, é bastante azarado, e mesmo que seus filmes entrem para a história da cultura pop, não são tão lucrativos. Afinal, materializar as maluquices da mente de del Toro custa caro.

Pacific Rim, por exemplo, teve um orçamento de $190 milhões, e mesmo fazendo $411, foi o suficiente pro diretor ser cortado da sequência. Seu último filme A Colina Escarlate por pouco não fez nem o suficiente pra se pagar. Portanto, já era de se esperar que o tão sonhado Hellboy 3 jamais acontecesse. O diretor vivia falando sobre esse projeto em eventos e redes sociais, parecia até uma mágoa. E ao menos que surgisse algum investidor desprendido de bens materiais pensando somente na felicidade dos fãs, ninguém iria encher os bolsos de del Toro pra ele finalizar a trilogia.

E não vai mesmo. Hellboy não ganhará uma sequência, mas será rebootado nos cinemas.

Pois é. O sonho acabou.

Nessa nova versão sai Guillermo del Toro e entra Neil Marshall, mais conhecido pelo seu trabalho em séries. São dele, por exemplo, os ótimos episódios Blackwater (S02E09) e The Watchers on the Wall (S04E09) de Game Of Thrones. No roteiro quem assume é o próprio criador do personagem, Mike Mignola, e também Andrew Cosby e Christopher Golden. Outra mudança triste é no ator: Ron Perlman sai de cena para a entrada de David Harbour, o xerife fã de manhãs e cafés em Stranger Things. Até aí tudo bem.

Mas eis que vem a grande bobagem: o novo Hellboy será “para maiores”. É sempre bom lembrar da declaração de James Gunn, o diretor de Guardiões da Galáxia, lá no início de 2016:

“Nos próximos meses Hollywood vai entender errado a lição de Deadpool. Vão aprovar filmes ‘tipo Deadpool’, com heróis obscenos, quebra de quarta parede e zero originalidade”

Bom. O cara é um verdadeiro profeta. Se Deadpool deu um ótimo retorno, e Logan veio em seguida arrebentando, o sucesso é culpa direta da classificação etária. Só pode ser isso. Nos últimos meses tivemos várias e várias notícias envolvendo a palavra “filme” + “nome do herói” + “para maiores“. Spawn vai ter o seu. Anunciaram o do Venom. E agora Hellboy.

Não tem mais bobo em Hollywood (aliás, nunca teve), e os caras perceberam o incrível marketing gratuito que isso gera. “Uau! Vai ter sangue e violência” é o que pensa o espectador médio. Esse fascínio pela violência explícita não é de hoje, e orbita o imaginário de adolescentes desde sempre na cultura pop, seja em quadrinhos, games, animes etc. Porém uma coisa é um filme do Scorsese sobre máfia ter a violência como parte da narrativa, outra é usar isso apenas para criar uma falsa ideia de qualidade, como se existisse alguma relação entre essas coisas.

A fantástica Trilogia Batman do Nolan é PG13. Soldado Invernal também. Guaridões da Galáxia também. Homem Aranha do Sam Raimi. E claro, o Hellboy do del Toro. Eu até entenderia se a restrição de idade fosse fruto de uma história madura, sem muito escapismo, e com nuances que um público mais novo não conseguiria entender. Mas em um mundo onde Adam Sandler ainda é sucesso, cobrar que adultos aceitem serem desafiados no cinema é sonhar alto.

Deadpool: $783 MILHÕES. Logan: $608 MILHÕES.

Resumindo: o +18 é apenas uma estrategia de marketing e que o personagem o direito de falar “fuck” a cada 2 palavras e cenas desagradáveis de violência explícita. Mais nada. Mais absolutamente nada. E cara, a gente segue caindo. Ainda sobre a questão de Deadpool, James Gunn disse o seguinte:

“Após todo filme que quebra recordes as pessoas aqui em Hollywood adoram sair listando as razões do sucesso. Vi isso acontecer com Guardiões. ‘Não tem medo de ser engraçado’, ‘é colorido e divertido’ etc. Na sequência soube de vários projetos ‘ao estilo Guardiões’ e comecei a ver um monte de trailers iguais ao do meu filme”

Esse negócio de colocar uma música pop no trailer já encheu tanto o saco que virou chacota. Só nas últimas semanas tivemos A Liga da Justiça com música do Beatles e Os Defensores com Nirvana. Sério, os caras conseguiram destruir algo tão bacana. O fato é que Hellboy vem aí, sob encomenda, pensando nesse público que adora ser adulto vendo filme com bastante sangue. Uma pena que um cara tão divertido e criativo como Guillermo del Toro não nos sirva mais.

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