Blade Runner 2049 e o poder de uma lembrança

Há 30 anos, mais humanos que humanos.

Luide
Luide
9 de outubro de 2017

Uma das lembranças mais antigas que tenho é de estar sentado sobre uma almofada, que estava em cima de uma lata, que por sua vez estava em cima de uma cadeira. Eu era muito pequeno e essa foi a maneira que meu pai encontrou de me fazer ficar a altura da mesa. Minha mãe certa vez me contou que isso provavelmente aconteceu quando eu tinha 2 ou 3 anos. Essa memória é quase um borrão, uma mancha no emaranhado de informações e lembranças que guardo.

Não da pra saber do contexto daquele dia muito menos como ele começou ou terminou. É como uma foto, registrando aquela fração de tempo para a eternidade. Mas esse milésimo de segundo que de alguma forma se recusa a sair da minha mente, me joga diretamente para uma época onde minha família se reunia para as refeições. E nessa época, meu pai ainda está vivo e eu ainda tenho um mundo todo de escolhas pela frente. Aos 30, evocar momentos assim, causa uma certa dor. É o poder de uma memória.

Nessa foto tirada em 1988, meu pai me segurava na frente da minha antiga casa no interior do Paraná. Obviamente não lembro desse dia, mas essa imagem conta uma história. Histórias, histórias, histórias… tudo que aconteceu desde meu nascimento até o exato momento que escrevo esse texto, é um reflexo do que escolhi lembrar e esquecer.

Imagine como seria caso eu descobrisse que nessa foto não sou eu? Que isso é uma mentira? Ou que aquela lembrança minha na cadeira foi inventada?

Em Blade Runner 2049 a memória é o que justifica a existência. Em determinado momento, Agente K pergunta a Deckard o nome da mulher que ele investiga. São poucos segundos de silêncio antes da resposta. Era Rachel, com quem há 30 anos o então blade runner fugiu. Essa pequena pausa é uma checagem: Deckard revisita as lembranças que tem de Rachel, processa, e então tem sua importância reforçada. Já K não tem do que lembrar. É isso que o inquieta.

A sensação de vazio é clara, e Ryan Gosling conduz o personagem com esse vácuo de sentimentos. Como uma personalidade pode nascer sem experiência? K é apenas um cara preso em uma rotina, um solitário em meio a uma multidão que se aglomera em uma Los Angeles escura e suja, mas que brilha a luz de neon. O personagem se apega à uma doce lembrança, onde ainda criança, lutava por aquilo que era seu. É uma forma de se sentir humano: ter pelo que lutar.

Isso explica a obsessão dos Replicantes por fotografias: em tese, é um comprovante físico de algo que vivemos.

…como uma lágrima na chuva“. A frase dita por Roy no original de 1982 é carregada de interpretações. Se tudo que viveremos irá se perder na imensidão do tempo, vale a pena se apegar em alguma coisa? É claro que sim. É justamente essa noção de finitude que colocou a vida como o principal objetivo dos Replicantes. Viver é acumular memórias, e a única forma dessas memórias valerem a pena, é ter pelo que viver.

Em 2049 os humanos ainda não aprenderam a lição. Aqueles que vivem no abismo entre a vida e a morte compreendem o valor de uma simples memória. Mais humanos que humanos… nada mudou nesses 30 anos.

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