Os monstros estão entre nós

Shut Up and Dance (S03E03) brinca com nosso senso de julgamento e justiça

Luide
Luide
25 de outubro de 2016

O “criminoso” tem uma imagem bastante nítida em sua mente, a face do mal, agressivo, obscuro. Ninguém imagina que aquele senhor engravatado de gel no cabelo espanca a mulher quando chega bêbado em casa. Ou que aquele rapaz moralista trai a namorada em cada oportunidade possível. Existe a versão que você apresenta para a sociedade, e existe aquela você guarda para si. Qual delas está no controle hoje?

Alguns chamam de dupla personalidade, mas a verdade é que se trata de uma camuflagem. Pode existir um pedófilo dividindo o mesmo escritório que você. No mesmo vagão de trem pode haver vários abusadores. Esse rosto feliz pode esconder a face de um homofóbico agressivo.

Shut Up and Dance (S03E03) é o típico episódio de Black Mirror frio e cruel, que joga com nossa total falta de percepção de gravidade, e como o julgamento de caráter é facilmente manipulável. Charlie Brooker adora distorcer a verdade. No episódio um grupo de pessoas são assediadas por uma espécie de hacker, que após conseguir acesso a momentos de intimidade de suas vítimas, as força a participar de um jogo de punição. O grande revés revira o estômago ao mostrar os monstros que vivem escondidos entre nós, e graças a internet, dão vida e forma as suas insanidades.

Pedófilos e racistas. Você sentiu pena deles. Já que são boas pessoas, comuns, que não fazem mal a ninguém. Trabalham, pagam seus impostos, tem família. Até parece que escondem algum segredo. Mas escondem. Um exemplo clássico de como esses monstros estão entre nós são os assustadores relatos de estupros (inclusive de crianças) cometidos por familiares. É um erro comum achar que a maioria dos casos acontecem a noite, em uma rua escura, com mulheres de mini-saia vagando sozinhas. Acontece dentro de casa. No quarto ao lado. O que não falta é mulher violentada pelo namorado, esposo, pai, tios, primos.

Em Shut Up and Dance temos um pai de família que procura na internet uma jovem para um sexo casual, uma empresária racista e um garoto pedófilo. O episódio é avassalador, flerta com uma possível denuncia a casos de pessoas expostas na internet, seja através de vídeos íntimos, ou mentiras a seu respeito. Mas Charlie Brooker não seria tão óbvio, e guarda para o final a verdadeira mensagem, mesmo que satirizada através do meme trollface.

Afinal, ainda que nos pareça que esses “trolls” tenham feito justiça, sua real intenção não era desmascarar criminosos, levá-los a prisão (seria muito mais simples fazer isso). Entender o sadismo escondido por trás de uma “brincadeira” ou um “ato de justiça” é de extrema importância para chegar ao destino final. Já que com essa desculpa, milhares de pessoas são expostas e condenadas todos os dias na internet, e mesmo que nenhuma delas tenha cometido algum crime, a ideia de punir é um dos carros chefes das redes sociais.

Você compartilha o vídeo que vazou de uma mulher traindo o marido no motel porque ela merece. Você expõe fotos da sua ex porque ela sabia o que estava fazendo quando tirou. Você insulta, agride verbalmente, diz coisas terríveis sobre a aparência, cor, religião de uma pessoa porque ela é contra sua posição política. Mas é trollagem, é brincadeira, é piada.

Shut Up and Dance carrega um forte embate moral, assim como White Bear. O que significa punir e ser justo, ao mesmo tempo que joga na cara do espectador sua total escuridão. O monstro está atrás da porta ou oferecendo um sorriso gentil em uma lanchonete?

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