San Junipero e a nostalgia como um lugar de consolo

Vida, morte e a eternidade

Luide
Luide
27 de outubro de 2016

Há um bom tempo não fazíamos mais festas de natal e revellion na casa de minha mãe. Mais precisamente desde 2000 quando meu pai faleceu. Em 2015 resolvi recuperar essa tradição, já que minha filha Alice iria nascer no ano seguinte, e senti essa vontade de dar a ela uma série de lembranças das festas de fim de ano na casa da avó. Pois bem, tios, tias, primos, todos acharam uma ótima ideia, até o momento em que o passado virou o principal assunto.

Os mais velhos ficaram lembrando das festas de antigamente, como tudo era melhor. As coisas eram mais baratas, alguns parentes ainda estavam vivos, elas podiam dançar mais, ninguém ficava grudado no celular… o passado era muito bom e o presente é uma dor constante. Esse nostalgia não é incomum. Converse por 5 minutos com qualquer idoso e você sairá achando que vive na pior época da humanidade, que bons tempos foram aqueles que já se passaram.

Mas também não saia achando que esse apego ao passado é fruto do avanço da idade. Mesmo que isso seja sim um dos sintomas da velhice, essa inclinação de enxergar felicidade apenas em lembranças acontece até mesmo entre os mais jovens. Não é difícil encontrar alguém na casa dos 30, 40 anos, esbravejando na internet que na sua época os filmes eram melhores, a música era decente, e os jovens não eram alienados. Ou a época da ditadura… aquela sim era boa. Ou que a vida sem internet era muito mais real. Ah, no seu tempo também as crianças eram mais felizes pois elas soltavam pipa, e não jogavam Minecraft.

San Junipero (S03E04) é Black Mirror falando sobre nostalgia. O que acontece quando ficamos aprisionados a memórias? Ou ainda pior, uma versão que adotamos dessa memória. Remoemos tanto o passado, sentimos tanta vontade que ele volte, que acabamos lapidando os melhores momentos, descartando os ruins, e criando a imagem perfeita da felicidade. No seu tempo as coisas eram realmente tão boas assim?

O episódio então materializa essa prisão. San Junipero, um programa que deveria ajudar idosos em um momento delicado de suas vidas, acaba se tornando a imagem perfeita de uma época que já se foi. Tão perfeita que se torna idealizada demais, portanto, não admire que nem mesmo a década de 80 tenha sido tão década de 80 quanto a mostrada no episódio. É o que as pessoas querem se lembrar, e é o que ela se torna. Um lugar onde você pode repetir, repetir, repetir. Viver a partir de uma memória. É a tragédia da nostalgia, quando o presente não é o suficiente, e o futuro não interessa.

Mas o que torna San Junipero aquele que talvez seja o episódio mais ousado em seus temas desse terceiro ano, é discutir a eternidade do ser humano, ao mesmo tempo que arranha a questão da eutanásia. Vida, morte, memória e eternidade. Uma complexidade transformada em uma belíssima história de amizade, amor e liberdade. Aqui nós viajamos para algum lugar no tempo para conhecer Kelly e Yorkie, ambas com experiências totalmente diferentes.

Enquanto Kelly teve a vida tradicional (amou, casou, teve filhos, viu aqueles que amou partirem e agora desfruta da solidão), Yorkie foi condenada a uma cama. Em San Junipero elas irão se encontrar. Enquanto a primeira teve o que a vida tinha a oferecer, a segunda encontrou nesse lugar aquilo que sempre desejou. Black Mirror então assusta o espectador por não criar um ambiente hostil onde a tecnologia se faz presente, já que a hipótese de um universo onde pessoas paralíticas possam voltar a sentir o mundo o seu redor é fascinante. Mas ao mesmo tempo San Junipero cria o embate entre aquilo que entendemos como vida, e aquilo que entendemos como morte.

Imagine o que é estar vivo e como uma série de coincidências há bilhões de anos foi resultar no que é você hoje. Esse ser consciente de sua existência. Que ama, odeia, sente prazer, se dedica a outras pessoas, tem ideias, absorve ideias. Mas a noção de que um dia isso simplesmente irá se perder como uma lágrima na chuva nos assola. Há milhares de anos o homem vem tentando aceitar sua mortalidade, e talvez isso explique nosso apego a religião, a fé.

O fato de que algum Criador pode nos salvar da morte, do esquecimento eterno, nos levar a algum lugar onde viveremos eternamente ao lado daqueles que amamos é algo inimaginável. É uma recompensa tão grandiosa, tão perfeita, que fica impossível não acreditar nela, não é mesmo?

San Junipero não deixa de ser uma idealização do paraíso. Mas ele não resolve o problema da mortalidade e por isso seu final, ao contrário do que muitos alegam, não chega a ser feliz, mas sim terrivelmente incômodo. Veja, você realmente acredita que as consciências de Kelly e Yorkie foram transferidas para um servidor? Aquilo não seria nada mais do que uma cópia digital do que um dia foram aquelas pessoas? San Junipero não é a mesma coisa que uma rede social, por exemplo? O seu perfil que ali ficará mesmo depois de sua morte, é você ou uma versão que ficou pra trás enquanto seu verdadeiro eu mergulha na infinita escuridão da morte?

É um episódio fantástico, que soube representar todo o espírito de Black Mirror. Enquanto Be Right Back (S02E01) aceita morte, San Junipero a questiona. Viver de memórias, viver do passado, viver eternamente. A vida é tão complexa que não aceitamos que ela está ocorrendo agora.

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