Quantas vezes você precisou fugir?

Playtest (S03E02) te convida para encarar seus medos

Luide
Luide
24 de outubro de 2016

Desde muito pequenos, nossos pais impõe certas responsabilidades, como guardar os brinquedos e dormir no horário. Com o avançar da idade, tais responsabilidades vão se tornando cada vez mais sérias. Passar no vestibular, decidir qual carreira seguir, constituir uma família, lidar com dívidas, problemas de relacionamento, com parentes próximos, no trabalho. A vida é composta por esses desafios que batem de frente. Alguns vencem, outros perdem, e claro, muitos fogem.

Essa confusão sobre quais são nossas responsabilidades costuma aparecer em um período cuja sua importância pouco é discutida. A entrada na vida adulta, aquele momento que já somos velhos demais para fugir, ao mesmo tempo que nos encaramos jovens demais para ter muito pelo que “esquentar a cabeça“. É aquele período perto dos 30, que chamamos de amadurecimento, onde baladas já não são mais assim tão divertidas, ao mesmo tempo que ficar em casa no fim de semana soa como insulto.

Mas é claro que a recusa desse chamado (aceitar e encarar seus problemas) não é algo particular a esse período da vida. Muitos fraquejam, tentando encontrar um atalho, um momento fora dessa realidade e deixar tudo pra depois. Em Playtest (S03E02) Charlie Brooker ilustra essa tentativa de fuga através de um avançado sistema de realidade virtual, que conectado ao cérebro, fornece a seu usuário uma experiência audiovisual baseada em seus próprios medos.

É claro que nem de longe o episódio se porta como uma crítica a indústria dos games, mas sim a tem como base para sua história. Aqui o videogame pode ser trocado pelo abuso de álcool, drogas, abandono ou qualquer outro meio que desligue seu cérebro da verdadeira situação a ser encarada. O foco é ansiedade de ter que assumir suas verdadeiras responsabilidades.

Mas é interessante como Cooper encarne o estereótipo do homem perdido. Playtest o apresenta como alguém livre, que viaja o mundo, é curioso com outras culturas, afinal, não quer se sentir preso a uma única maneira de enxergar a vida. Ele quer aproveitar cada momento o máximo possível, afinal, a vida é apenas isso, uma passagem pela Terra, correto? Então Cooper faz tudo o que pode no menor espaço de tempo possível. É a típica imagem do jovem perturbado com o estilo de vida de seus pais, dos adultos, que vivem nessa bolha da rotina, tem compromissos com trabalho, casa e família.

O jovem não quer isso. Ele não quer ser responsável por ninguém, por isso, assim como Cooper, ele prefere se relacionar com terceiros graças a um aplicativo de paquera. Ali nada precisa ser real, essa tecnologia permite que você se livre das convenções humanas e se dedique exclusivamente ao prazer sexual. Acabou? Cada um pra sua casa.

Playtest então mostra o que acontece quando você precisa ficar cara a cara com seus medos e ansiedades. No caso de Cooper, ele perdeu o pai e não suportou a ideia de viver o luto ao lado de sua mãe. Então ele foge. É interessante notar como seu comportamento não deixa de ser um ato de desespero, é aquela história que cada um processa o luto e a dor de maneiras diferentes. O grande problema nisso tudo é não aceitar que esse momento precisa sim ser digerido, sentido, afinal, a despedida é parte da vida.

Um exemplo clássico dessa relutância em aceitar a tristeza é o fim de relacionamento. Note o padrão comportamental daqueles que saíram de namoro ou casamento. A pessoa corre para “aproveitar a vida“, vive buscando momentos felizes e insistindo que eles existem a todo instante. É simplesmente uma fuga. O medo de dizer a si mesmo: ok, aconteceu algo triste e eu preciso de um tempo para processar tudo isso. Ninguém é de ferro.

Mas ao mesmo tempo, Playtest também é forte ao mostrar que muitas vezes essa fuga é feita por puro mau caratismo. O homem que abandona a mulher quando ela descobre que está grávida, filhos que não aceitam a responsabilidade de cuidar dos pais idosos, amigos que só aparecem nos momentos felizes. Escrito por Charlie Brooker e dirigido por Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10), o episódio é um exercício de aceitação. Saber dos seus limites emocionais e principalmente, entender a hora de encarar aquilo que você precisa encarar.

Não fuja.

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