Eu quero ser notado, e também quero uma boa avaliação

Nosedive abre a tão esperada terceira temporada de Black Mirror

Luide
Luide
22 de outubro de 2016

Em algum momento da história, o homem descobriu que poderia cultivar seu próprio alimento, eliminando assim a necessidade de viver como um nômade. Era possível se estabelecer em um lugar fixo, e ali viver até o dia de sua morte. Com isso um novo problema surge: a vida em sociedade. Desde então vivemos nesse ciclo de convivência com terceiros, desenvolvendo normas que possibilitam esse relacionamento básico. Enquanto o instinto natural faz com que nos aproximemos para fins maiores (o da reprodução, por exemplo), existe um desejo inexplicável que insiste em não nos abandonar: o de ser notado em seu meio.

Fale bem, fale mal, mas fale de mim” é uma das frases adolescentes mais batidas e cômicas, porém não deixa de ter algum sentido. Falem de mim. Me notem. Saibam que estou aqui entre vocês. Essa busca por atenção e ascensão social não é novidade alguma, o tempo todo buscamos fazer parte de um grupo, de algum movimento, seja através da moda, do gosto musical, da preferência política. Até mesmo a recusa disso é, porque não, uma maneira de chamar atenção. “Veja como não me importo com vocês. Me olhem, eu não estou importando“.

É claro que Nosedive, episódio que abre a terceira temporada de Black Mirror, não vem simplesmente denunciar o óbvio: a vida plastificada em busca de números na internet, mas sim estabelecer a conexão direta entre um desejo natural de ser visto e a tecnologia que o potencializa. Ou seja, aqui a ficção científica literalmente joga mais lenha em uma fogueira que queima há milhares de anos.

Lacie (Bryce Dallas Howard) encarna a típica usuária padrão de redes sociais que procura aumentar sua relevância mostrando o melhor do seu dia. Mas veja, me parece certo afirmar que assim como ela, você jamais irá expor um momento de dor na internet (uma briga de casal, por exemplo) ou simplesmente postar fotos do seu bebê chorando com a fralda suja. As redes sociais existem justamente para você escolher os melhores momentos do seu dia, nos melhores ângulos e filtros possíveis. Mas porque você faria isso sistematicamente? É aí que existe um gatilho simples e totalmente eficaz: os números. Likes, shares, retweets. É o incentivo necessário para que cada vez mais você registre apenas o que é belo, perfeito, feliz.

O que pode parecer apenas um feedback de seus amigos que gostaram da publicação, na verdade é o pote de ouro no fim do arco-íris. Quanto mais números, mais importante você deve ser, e isso cria o atual fenômeno dos “influenciadores digitais“. Pessoas que basicamente vivem da imagem projetada na internet. Você é o que você posta, simples. Não precisa ser humano ou fazer sentido, como por exemplo, um homem de meia idade que vive em aviões e rodeado de mulheres, tomando vodka com energético a semana toda. Ninguém consegue levar uma vida assim, mas a internet possibilita a criação desse personagem.

Os influenciadores então precisam influenciar. O que exatamente? A promover o consumismo. Mas você não consome se estiver triste, por isso a noção de felicidade constante anda ao lado. A vida perfeita, o sorriso que nunca termina. Em Nosedive isso é bem evidente quando por exemplo, Lacie encontra uma conhecida no elevador. Não existe nenhum tipo de verdade na conversa, afinal, ela não existe para criar emoções, mas sim, resultar em números.

Ao mesmo tempo, Nosedive mostra que o discurso contrário também faz parte desse jogo por atenção e aprovação. Quando o irmão de Lacie critica seu estilo de vida, mas ao mesmo tempo corre pra conferir a nota que lhe foi dada, ele se mostra tão viciado quanto a irmã. É o típico usuário que rejeita o ambiente que está, quando por exemplo, posta uma mensagem criticando aqueles que querem likes. Sua intenção aqui não é de fato se posicionar contra esse tipo de mentira que contamina a internet, mas sim buscar a atenção daqueles que concordam com ele. Não é por menos que canais no youtube que vivem de criticar outros canais são sucesso.

No fundo, quem come amoeba e quem critica quem come amoeba estão no mesmo barco.

Voltando a Nosedive, o rankeamento de seres humanos também flerta com um problema bastante comum a classe média. Ela não tem o dinheiro suficiente para fazer parte de uma classe mais rica, ao mesmo tempo que não se sente parte de uma mais baixa. Quando Lacie perde o voo e sua nota começa a cair, ela passa pelo dilema que muitos nesse status social passam: não tenho dinheiro para comer no melhor restaurante da cidade, mas também não aceito comer em qualquer um. É o que explica, por exemplo, o medo de alguns que tiveram seus espaços invadidos por adolescentes de periferia nos chamados rolezinhos: você não merece estar aqui, sua nota é menor que a minha.

Nosedive se encerra mostrando que por mais falso e grotesco que seja esse ambiente, negá-lo também é impossível. É uma doce mentira fazer parte desse grupo de pessoas, afinal, se você detesta tanto assim a elite, porque insiste em levar uma vida como elas? Se você sente tanto desprezo por youtubers milionários, porque não suporta a ideia de simplesmente deixá-los no lugar deles?

Não dá, você quer ser bem avaliado, seja por quem quer que seja.

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