Da hashtag ao meme, o caminho do ódio na internet

Hated in the Nation (S03E06) encerra o terceiro ano de Black Mirror

Luide
Luide
7 de novembro de 2016

Em maio de 2014 uma mulher foi torturada e morta por moradores da cidade de Guarujá, litoral de São Paulo. Vítima de boatos em redes sociais, ela foi confundida com uma suposta “bruxa” e sequestradora de crianças. Em plena luz do dia ela foi espancada até a morte. Infelizmente o crime que chocou o Brasil é apenas um entre vários que acontecem o tempo todo diante dos seus olhos. Disfarçadas de “opinião” ou “liberdade de expressão”, agressões virtuais já são a causa inicial de casos de depressão, isolamento social, transtornos comportamentais, fobias e em casos extremos, agressões físicas, mortes e suicídios.

Para muitos, a ideia de que a internet seja um lugar isolado da realidade, onde leis e regras morais não são aplicadas, permite todo tipo de selvageria ou escárnio. O imaginário de que exista um “mundo real” da uma falsa liberdade ao usuário da internet. É mais ou menos o que acontece quando você joga um game violento: ali tudo é permitido, afinal, não passa de um amontoado de códigos. Essa linha de raciocínio é aplicada as redes sociais. O verdadeiro eu está lá fora, aqui, diante de um computador ou celular, sou um personagem, portanto, posso ofender sua aparência física, sua religião, suas posições políticas que nada de mal irá acontecer, tanto a mim quanto a você.

É tudo uma grande piada. Nada é verdadeiro…

Hated in the Nation explora as consequências desse choque entre as supostas realidades que existem: o “real” e o “virtual”. Em uma mistura de série policial procedural com sci-fi de baixo orçamento, Charlie Brooker encerra o terceiro ano de Black Mirror mais óbvio do que nunca, e pela primeira vez, da uma espécie de “lição de moral” no espectador, ao mostrar os “males do haterismo nas redes sociais”.

Um fato curioso em Hated in the Nation é sua ligação com White Bear, outro que também fala sobre punição. Nesse post falo sobre as pequenas inserções de notícias que aparecem durante todo episódio, mostrando andamento do caso de Victoria Skillane. O paralelo é necessário para entendermos onde Hated in the Nation quer chegar. As pessoas mortas são vítimas ou foram punidas? E essa punição foi proporcional ao ato?

Pouco importa. O controle de massas é quem irá decidir. Sua opinião não é tão enraizada assim, a todo momento ela é transformada e influenciada por agentes externos. No fim do dia, o que você pensa sobre um determinado assunto não surgiu após muito ponderar sobre ele. É bem provável que você esteja seguindo o caminho que foi conduzido a seguir. E não pense que isso é um problema tão distante assim.

O próprio facebook já admitiu maquiar a timeline de alguns usuários afim de testar se seu algoritmo de feed realmente exerce algum poder. Outro caso recente de manipulação de informação é a notícia que editores da coluna de Trending eliminavam notícias conversadoras. Basicamente você vive dentro de uma bolha e isso ficou bastante nítido nas últimas eleições municipais. Muitas pessoas ficaram surpresas com o fato do seu candidato, que era louvado por todos de sua timeline, não vencer.

É uma manipulação que acaba em uma condução. De gado mesmo. Sem perceber você está seguindo uma manada, e daí pra agir como eles é um pequeno passo. Em Hated in the Nation a promoção da hashtag evidência esse tipo de comportamento. Nada como algo que materialize um desejo comum. É ai que Charlie Brooker entra com a tecnologia e o trágico. A sensação de “mãos limpas” ao desejar a morte de alguém via twitter ou facebook é comum, já que tudo aqui é de mentira. Tudo aqui é brincadeira.

Não é difícil encontrar aqueles que se chateiam com isso, e automaticamente se tornam “chatos”. Quantas vezes você ouviu “isso aqui é a internet”? Na verdade, é bem provável que eu ou você já tenhamos dito isso. “Não dá nada, isso aqui é facebook, pode humilhar a vontade”.

Por enquanto seguimos fazendo o que bem entendemos, mas e quando chegar a nossa hora, quem irá nos punir? Ainda bem que as abelhas não estão extintas (mas já começou o processo).

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