As pessoas querem apenas se sentir tristes. E assistir Rick & Morty

E a série responde a essa demanda existencialista.

Luide
Luide
8 de agosto de 2017

Apesar de animação não ser um gênero, e muito menos um indicativo de restrição etária, muita gente ainda se impressiona com “desenhos para maiores”, como se já não existissem inúmeros exemplos de animações tanto para TV e cinema que explorem temas tidos como “adultos”. Mas é algo quase no subconsciente se espantar quando um personagem animado diz que a vida não faz sentido e que não acredita nos laços familiares. Por um lado, é uma forma do adolescente que ainda não tem idade suficiente para tirar carteira de motorista se sentir mais velho, e do mais velho se sentir um adolescente, mas sem culpa, afinal, é um “desenho adulto”.

Com fortes crises existenciais aliada a uma boa dose de psicodelia (algo cada vez mais marcante na cultura pop, com desenhos que vão de Bob Esponja a Hora da Aventura), Rick & Morty é típico refresco para uma enorme geração que cresce sem razões sólidas para se lamentar. Seus avós foram pra guerra, seus pais enfrentaram ditadura e inflação, já eles no máximo precisam lidar com um wi-fi lento. Tanta falta de problemas reais, faz com que inimigos invisíveis sejam criados, que vão desde a “família tradicional” até a “ameaça comunista”. Não é a toa que os jovens (e cada vez mais adultos) perdem tanto tempo com ídolos de internet que falam sobre isso. Existe uma certa vontade de ser triste.

E é justamente esse pensamento que leva milhões de pessoas a assistirem Rick & Morty, série que durante a primeira temporada obteve a melhor média de nota de uma série entre o público mais jovem. Mas toda sua estrutura pessimista faz sentido uma vez que é justamente assim que muitas pessoas se sentem o tempo todo: vivendo em uma realidade triste. Isso é catalizado em Rick, o avô que deveria se portar como a bússola moral. Ele é sujo, não se importa com nada, e já “desistiu da humanidade” há muito tempo. É dele as melhores frases, daquelas que o tumblr adora criar gifs pro pessoal do twitter replicar em uma manhã de segunda feira. A vida pode ser triste, mas pode ser menos triste se tive um gif que simbolize essa tristeza.

Assim como toda boa comédia, o verdadeiro trunfo de Rick & Morty é o texto, que apesar das referências pops que vão de Game Of ThronesDavid Cronenberg, não usa isso como muleta. A graça reside justamente na imperfeição, como no caso dos pais perto de um divórcio. Morty é o típico “normal guy” sem personalidade que acaba se tornando o centro da atenção dos espectadores: a maioria quer ser como Rick, mas é tão simplório como Morty. Isso acaba gerando uma estranha empatia.

Além disso, a imaginação da série lança mão de qualquer lógica e estrutura de formatos. Rick & Morty realmente abusa da sua liberdade e cria as mais diversas situações, um leque de possibilidades que permite ir ao interior do corpo humano e viver em múltiplas realidades. É aí que a série brilha, e fica difícil não seguir assistindo. Até onde esse niilismo como entretenimento pode ser explorada é fascinante. E por fim, não é de se admirar que seus fãs sejam tão inseguros com o que gostem, parece Rick & Morty realmente entende seu público como poucos.

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