As baratas que você insiste em não enxergar

Men Against Fire (S03E05) e a escolha de quem odiar

Luide
Luide
31 de outubro de 2016

Chris Kyle, o franco atirador americano mais letal na história, foi responsável por mais de 150 mortes durante os anos que atuou no Iraque. Em Snyper Americano o diretor Clint Eastwood nos mostra o terrível peso que Kyle carregava por ser um atirador de elite, cobrindo seus companheiros de possíveis ataques surpresas. Mais do que isso, o filme deixa claro a difícil tarefa que é para um soldado voltar para a casa depois de tudo que viveu. Como fazer compras no supermercado depois de atirar e matar uma criança que carregava uma bomba?

O trauma do pós-guerra assolou milhares de ex-combatentes, os horrores vivenciados foram responsáveis por uma série de problemas psicológicos, distúrbios, fobias e neuroses. O soldado vencedor volta para o lar como herói, mas completamente dilacerado pelo que precisou fazer. Era sua missão. Era necessário. E alguém precisava executar. Os inimigos sempre foram bem definidos: os nazistas, os vietcongs e agora os extremistas religiosos. Para matá-los era preciso ter isso em mente, esquecer qualquer tipo de humanidade na hora de apertar o gatilho.

A máscara é a maior arma militar de todas” é o que diz Arquette, personagem de Michael Kelly em Men Against Fire (S03E05) de Black Mirror. “Nós nos damos uma má reputação, mas temos grande empatia como espécie. Não temos vontade de matar uns aos outros“. Se o ser humano tem uma empatia natural pelo próximo, um instinto de preservar sua espécie, porque nós nos odiamos tanto? Charlie Brooker usa o terreno extremo de uma guerra para mostrar o óbvio: matamos baratas diariamente.

O ódio específico a algum grupo não é novidade e acontece com uma frequência assustadora. Dos judeus durante o início do século XX aos refugiados. Não é preciso saber exatamente o que cada um pensa, o que eles tem a dizer. São baratas e sua missão é exterminá-las. A máscara que cobre os seus olhos não é feita de uma tecnologia futurista, mas está sendo imposta a você todos os dias.

É menos doloroso você aceitar que eles são assim: imundos, cruéis e selvagens. Uma ameaça ao seu modo de vida, portanto, é melhor esquecer de possíveis qualidades que essa pessoa tem, da bondade que ela pratica, e encaixá-la em algum estereótipo pronto. A partir daí ela passa a ter apenas uma definição, seja de “crente“, de “esquerdista“, “fascista” etc. É simples e eficaz. Você se fecha em uma bolha, põe a máscara nos olhos e não é mais necessário passar pela difícil tarefa de sentir pena de alguém. Se todos são iguais, não é preciso tratá-los como indivíduos. Apertar o gatilho agora é algo que não precisa de muito esforço.

Em Men Against Fire os olhos de Stripe se abriram. Ele enxergou a verdade. Um tipo de verdade que ninguém irá te contar ou mostrar, é você quem precisa estar disposto a olhar além da máscara que colocam na sua frente. Será que a barata que você pisa não é igual a você?

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