3% não tem nada de novo pra contar

Pouco imaginativa, 3% é mais uma distopia adolescente

Luide
Luide
26 de novembro de 2016

Há um certo nacionalismo presente em grande parte do público que foi (ou irá) conferir 3%, a nova série original Netflix, ou como gostam de chamá-la “a série brasileira“. A vontade para que de certo, que funcione, mostra uma certa torcida para o conteúdo nacional, mesmo quando o ódio gratuito a filmes reconhecidos lá fora como Aquarius, ou o trato sempre jocoso para com nossas novelas (que são sucesso em vários países) provem o contrário. Nós queremos produzir nossa própria cultura pop, mas infelizmente um Zé Pequeno ou Capitão Nascimento não pipocam o tempo todo. E 3% infelizmente não chega pra fazer parte desse panteão de ícones nacionais que o cinema, a tv ou agora o streming nos presenteou.

O piloto postado no YouTube encontrou na Netflix o terreno criativo que precisava para trilhar um caminho confortável, porém, concebida em 2011, 3% viu o formato de distopia futurista de classes se tornar algo maçante, cansativo. A série Divergente que teve seu último filme cancelado devido a baixa bilheteria mostra isso. Ninguém aguenta mais um bando de adolescente sendo perseguidos por um sistema malvado constituído de velhos conservadores. Essa analogia se mostra cada dia mais óbvia, ou melhor, se tornou uma fórmula conveniente de contar uma história.

Na Netflix, 3% é esse amontoado de clichês narrativos, e potencialmente prejudicado por um roteiro superficial demais, que fica sempre arranhando as possibilidades de se aprofundar nos temas propostos. A série é pouco imaginativa, e sua construção de mundo é bastante simplista. Não existe ali, por exemplo, um apelo visual que poderá criar no espectador alguma isca de memória. Mais ou menos como acontece com Mr. Robot: toda vez que você encontrar alguém com capuz se lembrará de Elliot, ou toda vez que notar alguém com a cara grudada no celular se lembrar automaticamente de Black Mirror.

Tudo parece uma produção de baixo orçamento. Mas claro que isso não seria um grande problema se 3% se sustentasse na trama, na história de seus personagens. O que temos ali é um acumulado de personalidades básicas, sem muita vontade de mostrar exatamente quais as motivações de cada um. 3% me parece mais uma jogada de mercado, afinal, vendida como “a primeira série brasileira Netflix“, muitos vão se sentir representados no serviço de streaming que é presente em mais de 200 países ou territórios. Ou seja, puro consolo.

Supermax e 3% mostram que o caminho por gêneros “diferentes” não é a melhor opção se você não tiver muito o que contar. Ter uma ideia é uma coisa, executá-la dentro de episódios de 40, 50 minutos é outra. Mas a internet está aí, um ambiente livre para os mais diversos tipos de criativos, basta ser bom. É torcer para que o famoso e querido “brasileiro” consiga nos surpreender.

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